Por Maduh Cavalli
(Um) Ensaio sobre a Cegueira, do Grupo Galpão, Inspirada na obra de José Saramago, a montagem desloca o foco da narrativa para a experiência. A conhecida epidemia de cegueira branca funciona menos como motor de trama e mais como dispositivo simbólico: não se trata de uma cegueira física, mas de uma metáfora da falência ética, da razão, do senso de coletividade, da capacidade de enxergar o outro. O espetáculo, então, não quer apenas contar essa história, mas fazer o público atravessá-la.
A encenação se constrói a partir de camadas sensoriais e imagéticas que convocam o espectador a um estado ativo. Há uma aposta clara no imaginativo: o que não se vê é tão, ou mais, importante do que aquilo que está exposto. Nesse sentido, a peça opera numa lógica de deslocamento da centralidade do olhar, instaurando outras formas de percepção. Há algo de profundamente poderoso quando o teatro rompe a barreira do olhar e se instala em outros sentidos. Quando ele deixa de ser contemplação e vira experiência.
Essa proposta se intensifica quando parte do público é convidado a entrar em cena. A experiência, longe de ser um recurso meramente interativo, revela-se um gesto político. Estar ali é, ao mesmo tempo, perder o controle e perceber-se dentro de uma engrenagem maior. Paradoxalmente, é também nesse estado de “não ver” que se amplia a compreensão do todo. Mesmo sem enxergar grande parte do que acontecia, eu compreendi, talvez mais do que se estivesse vendo. Porque o entendimento veio pelo corpo. No fim, as lágrimas vieram sem aviso.
Os personagens, ao longo da narrativa, ganham contornos cada vez mais viscerais. Não há idealizações: o que emerge é o humano em sua dimensão mais crua, violento, egoísta, mas também, por vezes, solidário. Essa ambivalência sustenta a tensão dramatúrgica e impede qualquer leitura simplista. A peça não oferece respostas fáceis; ao contrário, insiste em expor contradições.
A direção de Rodrigo Portella se destaca pela precisão com que articula esses elementos. Há uma condução firme, mas sensível, que organiza o caos sem domesticá-lo. A encenação mantém um equilíbrio delicado entre rigor formal e abertura para o imprevisível, algo essencial quando se trabalha com a presença ativa do público.
Outro momento de grande impacto é a saída para a rua ao final do espetáculo. Depois de um mergulho tão denso, o retorno ao espaço urbano funciona como um respiro, um reaterramento. Mas não há alívio completo: o que foi vivido permanece reverberando. A cidade, agora, é atravessada por outra camada de sentido.
Assistir a (Um) Ensaio sobre a Cegueira é confrontar-se com uma pergunta incômoda: o que, de fato, temos escolhido não ver? Ao tensionar as relações entre indivíduo e coletivo, ética e sobrevivência, a peça reafirma a potência do teatro como espaço de reflexão e experiência. Saí me perguntando o que eu escolho não ver todos os dias.
O Grupo Galpão, que já era para mim um lugar de amor e admiração, se reafirma como aquilo que eu acredito enquanto teatro.
Isso é teatro vivo.
Que expõe.
Que dialoga.
Que convoca.
Que pertence.
Teatro que acontece, na cena, no corpo, e muito depois do fim.
Foto de capa Maringas Maciel
