Um endeusamento sem respostas – conto-crítica sobre Versão Demo

Por Gabi Coutinho

Sempre desconfiei das frases que chegam prontas. Elas têm um peso estranho, como se viessem acompanhadas de uma assinatura invisível que diz: “não mexa”.

Passei muito tempo achando que o problema era meu. Eu escutava afirmações categóricas sobre arte, sobre vida, sobre o que é certo, sobre o que é possível… e sentia um leve ruído. Não era discordância imediata, era algo mais sutil. Uma pergunta que tentava nascer e era rapidamente abafada pelo constrangimento.

Eu aprendi que questionar incomoda. Então eu ficava quieta, mas o silêncio não resolvia.
As respostas prontas continuavam ali, como paredes erguidas em corredores estreitos. E eu caminhava entre elas com a sensação de que havia portas escondidas que ninguém queria abrir. Sem janelas com brechas para respiro, sem passagem de luz ou chance pra mudar o trajeto, eu me sentia sufocada mas seguia confiante acreditando na salvação.

Com o tempo, comecei a perceber que o desconforto não vinha da falta de respostas.
Vinha do excesso delas.

Tudo parecia decidido antes mesmo da pergunta existir.
O significado. O caminho. A interpretação. A conclusão. Era como assistir a uma história com o final já anunciado no cartaz.

E foi nesse terreno que algo começou a tensionar em mim. Uma vontade de interromper não para anular o que veio antes, mas para investigar possibilidades.

A primeira vez que argumentei de verdade, senti quase medo. Eu abaixei a mão muitas vezes antes de chegar a minha vez. Temia não a discordância, mas o vazio que poderia surgir depois. Sentia dor por parecer deslocada quando indagava se minhas raízes estavam mesmo no lugar certo. Talvez por não sentir que ali era o meu lugar mas, acredito acima de tudo, que era principalmente porque não queria efetivamente me enraizar a lugar nenhum.

Mais do que encontrar conclusões, eu me interessava pelo movimento. Pela construção. Pelo atrito entre ideias. Pela tensão que existe quando ninguém tem certeza suficiente para encerrar o assunto. Há algum suspense nisso, que me faz afirmar com convicção que cada possibilidade permanece viva.

A instabilidade, que antes me assustava, passou a me sustentar. Cada frase pode virar a cena e tudo, absolutamente tudo, passa a ser um teste e não uma versão definitiva.

Deixei de buscar minha cura ou segurança naquilo que já está escrito e vi diante dos meus olhos a liberdade para viver e, também, parar criar. Questionei o formato tradicional de fazer uma crítica de teatro, preferir dançar na chuva do que ficar segura no cais, optei por valorizar o incompleto em busca contínua pra se concretizar.

Endeusei a dúvida e a aplaudi de pé. Inclusive por ver que muitos ao redor preferiram levantar e deixar a sala antes do final. Eu prefiro o incômodo à indiferença.

Foto de capa Divulgação Mostra Insubmissa

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