Assistido na Cinemateca de Curitiba, numa mostra de filmes de Hitchcock organizada pela Fundação Cultural, Um Corpo que Cai é talvez o filme mais importante do diretor como também do cinema ao todo. Quarta vez assistindo e posso dizer, com certeza absoluta, de que este nunca vai perder a graça. O que posso falar desse clássico que já não tenha sido falado antes, ou, até mesmo destrinchado em entrevistas – especialmente aquela que deu origem ao livro “Hitchcock Truffaut”. É sempre um desafio falar de algo tão cultuado e que constantemente, através das linhas redigidas neste texto, possa cair a uma convenção de clichês críticos e até comentários óbvios. É uma responsabilidade que se assume aqui e assim será feito!
Antes mesmo de “Psicose” estrear em 1960, Hitchcock já havia feito grandes obras. Esta que falo hoje teve seu lançamento em 1958 e passou despercebida pelo público e foi julgada pelos críticos da época. Considerado como polêmico, doente, subversivo, ofensivo — tudo de negativo que há — poderia descrever a Um Corpo que Cai. O que é verdadeiramente comum, uma vez que não existe uma placa ou aviso alertando o público sobre o filme prestes a ver:
“Cuidado! Este filme está à frente do tempo. Você vai odiar, mas no fundo, você irá gostar. E o que vai te incomodar é você saber que, de alguma forma, existe identificação pervertida com essa história.”
Era os anos cinquenta e ninguém estava preocupado com o futuro do cinema, e alguns, já diriam que era uma arte sem futuro – quanto exagero…
O barato começa logo na abertura do filme, uma preparação para o que está por vir e sentir conforme a rodagem da projeção. Rostos que não conseguimos identificar, junto a animação de espirais – símbolo recorrente da obra – e a música do grande Bernard Herrmann, um dos maiores compositores de todos os tempos.
É numa perseguição nos telhados dos prédios de São Francisco, uma morte e o início de um trauma envolvendo alturas. Scottie (James Stewart), detetive aposentado, é assombrado por isso, ele não pode olhar para o chão se estiver numa altura de dois metros que já começa a ter vertigens. A solução? É preciso passar por algo tão marcante quanto da primeira vez. Seria um presságio de mais mortes? Engraçado é que quando está com sua amiga, Midge Wood (Barbara Bel Geddes) – que secretamente detém uma paixão por Scottie –, os dois elaboram uma teoria pra superar o medo de altura. Scottie deve subir aos poucos os centímetros até virar metros e assim, poder naturalizar a altura. Comicamente, o personagem de James Stewart pega uma cadeira pequena, e ela o contesta dizendo: “Uma cadeira?” Ele responde: “Quer que eu comece pela Golden Gate?” — o que, com o passar do filme, se revela um foreshadowing para seu segundo trauma.
A trama começa com Scottie sendo chamado por um amigo de faculdade. A conversa se desenrola, e o amigo pede que o protagonista investigue sua esposa, Madeleine, que anda agindo de forma estranha. Por vezes, o assunto de fantasmas do passado ou espíritos rancorosos entra na linha dos diálogos, o que é algo extremamente estranho para um filme de suspense e histórico do diretor – será que Hitchcock está mexendo com o sobrenatural mesmo? Ou, isso é apenas uma fabulação entre fantasia e realidade?
É tudo muito estranho como toma o direcionamento dos eventos, partindo sempre da abordagem de observador, espectador e voyeur. O que o detetive descobre nesses primeiros dias de investigação é que Madeleine parece estar obcecada pela figura de Carlotta, uma mulher cujo passado foi devastado e passou por traumas. E a partir dessa primeira investigação, tudo é muito fantasioso para Scottie, uma vez que não acredita em fantasmas vingativos afim de continuar essa espiral de tragédias.
Nessas cenas de espionagem, Madeleine chega na Golden Gate e é lá, onde supostamente o espirito de Carlotta tenta matar a mulher, jogando-a na água. O detetive vê a ação e pela primeira vez, sai da posição de observador para alguém que age, salvando a mulher, quebrando seu código de espião. Curiosamente, foi justamente a Golden Gate o início para superação de seu trauma de alturas. Inclusive, é de se destacar a fotografia dessa cena que usa o recurso do Vistavision – técnica cinematográfica que utiliza uma variante widescreen de alta resolução do formato de filme cinematográfico de 35 mm, criada e projetada por engenheiros da Paramount Pictures em 1954 –, para ampliação do enquadramento do plano.
Madeleine e Scottie acabam cruzando linhas não planejadas, se envolvendo romanticamente, criando um relacionamento extraconjugal. Mas esse floreio dura pouco, já que Madeleine, assombrada por Carlotta, se atira do alto de uma torre e morre. Scottie testemunhou aquilo e não conseguiu intervir por conta do seu medo de altura.
Mais uma morte, mais um trauma para a conta do protagonista, só que, dessa vez, o pegou de jeito. Scottie é internado e se torna incapaz de agir socialmente. Meses depois, após sair da reabilitação, o detetive vaguei em busca de proposito até encontrar uma mulher que lembra a imagem de Madeleine. Judy Barton é uma mulher comum de São Francisco, tem amigas, um emprego normal, jovem e solteira.
O que eu amo sobre Um Corpo que Cai é como esse filme é pervertido. Ele é essencialmente pervertido, justamente pelo o que acontece entre esses dois amantes. Scottie e Judy se relacionam e conforme os sentimentos dos dois vão crescendo, o detetive começa a opinar no visual da nova companheira. Critica a vestimenta, a forma como se maqueia e até na cor do cabelo, afim de muda-la para se parecer com a antiga amada morta. Judy entende o que está acontecendo e ao invés de dispensar esse maluco, ela vai e atende os pedidos do namorado.
É um filme sobre projetar imagens ou identidades, da criação do duplo ao espelho das faces. Isso se encontra em toda a concepção do filme, até mesmo numa cena rápida em que Midge, amiga do detetive, cria um quadro semelhante ao rosto de Carlotta, mas com seu próprio rosto. A amiga, que detém uma paixão secreta por Scottie, se projeta nessa fascinação pelo caso do fantasma. E a mesma coisa acontece com Judy, em que continua esse fetiche de se parecer com Madeleine — claro que tudo isso acontece por um motivo específico da trama, mas não é necessário abordá-lo para concluir esta análise.
E o que torna tudo isso mais engraçado é que a nova companheira manifesta o incomodo pro seu par, e ele diz que ela pode ir embora. Ironicamente, ela continua ali, mostrando um certo fetiche naquele jogo de cena. Com destaque até nos nomes se confundindo, uma grande gafe do personagem principal.
A impressão que fica no final é que se trata de uma grande tragicomédia, naturalmente, uma trama injusta para a personagem de Kim Novak, que é apenas mais um peão nesse jogo de manipulação e enganação. Assim como a espiral é um símbolo do filme — que, mesmo dando voltas, nunca para no mesmo lugar —, só me apetece dizer aos projecionistas que continuem a exibição, porque a cada vez que se assiste a “Um Corpo que Cai” mais se descobre sobre o cinema, novas conclusões, sempre parando em um novo lugar a cada fim de sessão.
