Tirania de metas: Como a leitura acelerada nas redes sociais está adoecendo os leitores

“Eu li 84 livros até agora e isso significa que tenho até a virada para ler mais 6 livros”, conta uma influenciadora digital no Tiktok ao começar um de seus vídeos no final do ano passado. Todo fim de ano é a mesma coisa na internet. Uma enxurrada de vídeos e posts com pilhas de livros lidos por influenciadores digitais. Alguns que chegam a ler mais de 20 livros por mês e que ao final do ano podem ter um número em torno de 240 livros lidos. Com o tempo, esse fenômeno tem virado o jogo e ao invés de incentivar o hábito da leitura, tem criado ansiedade e frustrações até mesmo nos leitores mais assíduos. 

Esse movimento começou a ser impulsionado ainda na época das comunidades literárias, nos primórdios da internet como Orkut e Youtube. A ideia central era incentivar mais o hábito de leitura entre jovens, visto que o país sempre teve problemas históricos relacionados a isso. Enquanto países mais desenvolvidos incentivam com programas públicos e escolares, no Brasil este movimento sempre foi inverso. 

Contudo, conforme a internet iniciou um jogo desenfreado de produtividade com algoritmos superinteligentes, a chave virou e o que fora pensado como um excelente projeto, tornou-se um problema que fura a bolha da literatura e pode chegar a problemas de saúde mental. 

A meta por leituras é impulsionada por influenciadores digitais, que ao trabalharem só com leitura para criar seus conteúdos, obviamente conseguem chegar a resultados maiores no final do mês do que um cidadão comum que trabalha 44 horas semanais. Todavia, essa realidade se embaraça diante da excessiva criação de conteúdo.

 

Desafios acelerados

Os desafios funcionam da seguinte forma: um influenciador digital publica um vídeo – geralmente de até 1 minuto e meio – convidando seus seguidores a participar de um desafio, como por exemplo 24 horas de leitura sem dormir. Os leitores topam participar, mas acabam vendo apenas o resultado final, quando o influenciador – na maioria dos casos – publica o vídeo pronto, após a conclusão do desafio. O que não chega a ser um problema, pois muitas vezes o público pode acompanhar através dos stories. 

O fato é que o conceito de desafio traz em meio a uma sociedade competitiva não é o de ser algo prazeroso, mas com uma meta a ser batida, assim como as de vendedores em lojas de call center. Um dos desafios pioneiros na internet por volta da década de 2010 foi a de ficar lendo sem parar por 24 horas. A sensação de fracasso sempre toma conta do leitor caso a meta do desafio não seja alcançada. 

Um desses desafios que viralizou recentemente no TikTok é o de 75 booked. Criado por um perfil de fora do país, o projeto chegou ao Brasil no começo de 2026 e tomou conta da rede de vídeos curtos. A apresentação dos vídeos são sempre as mesmas, mostrando que o objetivo é retomar o hábito de leitura. Neste caso, o desafio é comprar menos livros, ler em locais diferentes do que o leitor costuma e até mesmo descobrir novos hobbies. Uma das etapas é realizar 90 minutos de leitura por dia. 

Considerando o perfil social da maior parte da população brasileira e sua rotina, separar esse tempo por dia é inviável e praticamente impossível. E basta apenas rolar o feed poucas vezes para encontrar mais desafios como “5 clássicos que você deve ler em 2026”, “desafio dos 28 livros antes de fazer 28 anos”, entre outros. 

A escritora de romances e colunista do Folhetim Cultural, Laritza Oliveira, comenta que do ponto de vista mercadológico é interessante ver mais pessoas interessadas em ler, “mas eu acho muito nocivo essa cobrança invisível que fica em cima dos autores para que eles lancem um livro a cada x tempo pra que você continue relevante no meio ou dentro da plataforma de autopublicação e continue vendendo livros suficientes para pagar suas contas.”

De acordo com ela, a leitura rápida – ou muitas vezes chamada de dinâmica – atrapalha o processamento das informações da história e da própria aproximação do leitor junto com os personagens. “Quando lemos muito rápido, qualquer que seja a extensão do texto, o nosso cérebro não processa as informações corretamente,  podendo até criar informações “extras” pra cobrir as lacunas que ficaram faltando na história. Acredito que seja possível ler 20 livros num mês, desde que seu trabalho seja relacionado com ler livros, para quem trabalha CLT e tem todas as responsabilidades de um ser humano adulto, esse número se torna um pouco impossível sem ser uma leitura dinâmica ou speed reading.

 

Números de leitores no Brasil continua caindo

Que os desafios viralizam na internet e notoriamente, ampliam o desejo pela leitura, isso é fato. Contudo, isso reflete em maior número de leitores ativos? Na Bienal do Livro de 2025, por exemplo, foram vendidos cerca de 6,8 milhões de livros. Representando um aumento de 23% comparado a 2023, assim como o número de visitantes que ultrapassou os 740 mil.

Porém, segundo a última pesquisa de Retratos da Leitura no Brasil realizada em 2023, o número de leitores é de apenas 47%, contra 53% de não leitores. Mesmo com a alta de visitantes na Bienal, por exemplo, em um panorama nacional, os números ainda são pequenos. 

Assim, como enfrentar a falta de leitura com a ideia de metas aceleradas vendida na internet? Para Oliveira, encontrar a raiz do problema é complicado. “Achar a raiz disso é complicado, pois ao mesmo tempo que os criadores de conteúdo influenciam os leitores, esses também ditam as tendências do mercado com seu comportamento de compra, mas no fundo ambos são os responsáveis por transformarem o meio literário numa panelinha onde são sempre os mesmos livros ou os mesmos autores em alta. Mas se formos olhar para aqueles leitores que cobram dos criadores de conteúdo ou até mesmo das editoras pra pararem de lançar livros com a mesma “receita de bolo” ou só dos mesmos autores, são os mesmos leitores que só leem o mesmo gênero ou os mesmos autores. Pra que essa realidade mude, primeiramente NÓS leitores precisamos mudar nosso comportamento na hora de consumir livros.”

Por fim, ela ainda ressalta que essa situação atinge os escritores diretamente, já que por muitas vezes, também acabam sentindo-se pressionados a escrever e publicar mais por um período curto de tempo. “Em 2023 eu coloquei uma pressão tão grande de que tinha que produzir pelo menos 4 livros num ano – o mínimo no modelo de mercado da Amazon pra quem escreve romance – que em 2024 eu sofri um burnout e pelo bem da minha saúde mental tirei um ano “sábatico” da escrita. Foram meses e meses em que pensar em escrever era meu pior pesadelo. Eu mal conseguia ler livros. Nesse um ano, tive que me reapaixonar pela literatura, primeiro como leitora e depois como autora. Então eu acredito muito que esse modelo “fast-food” do mercado editorial interfere muito e acabe sendo um grande motivo para autores iniciantes acabarem desistindo de publicar. ”

 

Revolução cerebral que a leitura proporciona

Sentar para ler um livro em sua íntegra precisa ser uma ação calma, relaxante e prazerosa. Quase terapêutica. Afinal de contas, toda e qualquer leitura é uma viagem para um outro universo. Ao fazer isso, o cérebro ativa diferentes regiões que consequentemente serão desenvolvidas a curto, médio e longo prazo. Entre as principais partes ativadas estão o Córtex Visual, responsável por reconhecer as formas e letras, o Giro Fusiforme, Giro Temporal, Córtex Pré-frontal e Lobo Parietal. Veja os detalhes no infográfico abaixo:

O ato da leitura é uma das mais potentes quando se trata de desenvolvimento cerebral.  Ler cria novas conexões sinápticas. Quanto mais complexo o texto, mais o cérebro precisa se esforçar para criar imagens mentais e seguir argumentos. Ao ler ficção, o cérebro ativa áreas ligadas à percepção social, permitindo que você “viva” a experiência do personagem. Estudos indicam que o hábito da leitura aumenta a densidade de matéria cinzenta, o que pode retardar o aparecimento de doenças como o Alzheimer.

 

A morte do cérebro com vídeos rápidos

Com a chegada das tecnologias e o consumo de conteúdo rápido, o cérebro tende a querer ler menos. Uma pesquisa recente da Universidade de Zhejiang publicada em 2025 mostra que vídeos curtos funciona através de uma recompensa variável. Cada vídeo de 15 a 60 segundos oferece uma nova dose de dopamina com esforço quase zero. O cérebro se acostuma a esse “ganho rápido” e começa a considerar o esforço necessário para ler um livro como “custoso” demais. 

Um outro estudo, da Alemanha em 2025 com 1.200 participantes revelou que o consumo frequente desses vídeos reduz a capacidade de concentração em até 40%. O cérebro fica condicionado a esperar uma mudança de estímulo a cada poucos segundos.

A neurocientista Maryanne Wolf, autora de “Reader, Come Home” (2018), descreve que o cérebro humano não nasceu para ler, mas se adaptou para isso. No entanto, essa adaptação é plástica e pode ser “desaprendida”. Wolf aponta que, ao perdermos a paciência para a leitura profunda, perdemos também a capacidade de processar analogias, inferências e a empatia que a literatura proporciona. O cérebro simplesmente para de exercitar os circuitos necessários para o pensamento complexo.

Em sua obra “The Shallows”, o jornalista norte-americano, Nicholas Carr, detalha como a internet está “reconfigurando” fisicamente nossos cérebros. O cérebro fortalece as conexões usadas para multitarefa e escaneamento rápido, mas enfraquece as conexões responsáveis pela memória de longo prazo e contemplação. Pesquisas citadas por Carr mostram que o simples fato de saber que uma notificação pode chegar impede o cérebro de mergulhar profundamente em um texto.

Tornar a leitura é um hábito tão necessário para a sobrevivência humana de forma saudável quanto correr todo dia de manhã. Contudo, não basta passar o olho – assim, como não basta levantar 100kg de forma errada na academia – é preciso calma para absorver o conteúdo. Antes chegar ao final do ano com 5 livros lidos de forma ideal, do que bater um recorde superficial. 

 

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