Amor à Flor da Pele é um clássico moderno, um filme transformador, um jeito precioso no seu contar ao abordar uma situação simples com dilemas profundos. Uma obra sobre segredos e a tentação deles, quando se cria situações teatrais levadas como testes sociais, ao mesmo tempo, uma tara desses dois personagens.
A história é sobre esses dois vizinhos, ambos muito bem resolvidos, casados e atendem aos costumes diários junto aos encontros pelos corredores, escadas, os acasos que a vida lhes fornece. A intriga se iniciando quando os dois vizinhos, Sr. Chow (Tony Leung) e Sra. Chan (Maggie Cheung), suspeitam que seus companheiros estão tendo um caso. Essa suspeita se deve a distância, junto a ausência comum dos dois e até presentes e roupas semelhantes que reconhecem, como por exemplo, o uso da gravata de Sr. Chow e a bolsa da Sra. Chan.
E o que se desenrola nesse drama é na verdade uma série de encenações para os dois liderem com a tristeza de serem cornos. Ou seja, eles imaginam como teria sido o início dessa relação, partindo do teatro e das suposições sobre como conhecem seus pares. “Meu marido nunca diria isso”, disse a Sra. Chan ao Sr. Chow, ao interpretar o próprio marido.
Como dito anteriormente, o filme se comunica através dos segredos, da espionagem, dos gestos, daquilo que não é dito. Não revela quase nada através do verbo e é preciso prestar atenção para ligar os eventos fragmentados, e a história assim, se revelar para o espectador. A direção está interessada em observar os personagens através de frames, como se estivesse escondido ou testemunhando algo proibido. O engraçado é que a atenção da direção não é com o relacionamento extraconjugal acontecendo e sim, com as vítimas desse evento.
Esse desinteresse se emula até na falta de atenção nos rostos dos agressores, sempre mostrando o parceiro de Sra. Chan e Sr. Chow de costas ou de lado – inclusive, os dois apresentam características que lembram os dois personagens principais do filme, revelando um possível foreshadowing para uma possível atração.
Nesse jogo de tentações, não sabemos se é tudo um teatrinho ou realmente, os dois estão se apaixonando. Quem irá ceder? O que fica evidente é a moral dos dois, ao ponto de eles insinuarem de não quererem ser como seus parceiros. Pra que? Qual é o intuito de criar sentimentos um pelo outro, alugar quartos de motéis e acabar não fazendo nada ali? É tudo por orgulho ou… diria até que é um fetiche masoquista.
O caso é que não é o universo ou o destino impedindo que os dois tenham algo e sim, a teimosia dos mesmos. No fim, se submetem ao distanciamento, como se reconhecessem capazes de se amar, e mesmo assim, se condenam por esse desejo. E até existe situações onde a verdade é colocada em jogo, mas por meio do faz de conta ou dos mitos, ela é mascarada, quebrada facilmente, escondida em meia a argila e ser dúbio nessas situações pode ser o pior dos foras.
Wong Kar Wai é um cineasta que se evidencia pelo seu visual, principalmente pelas suas cenas com baixos frames e sua duplicação que causa aquele borrão vertiginoso. Porém, algo que pouco se fala é seu domínio quando se esculpe o tempo, em que se apropria das repetições de cenas para dar e tirar significados. É lindo, majestoso e ao mesmo tempo, nos faz questionar o amor, se de fato, é um sim ou não, ou apenas, um teste de egos. No fim, é tudo sobre o individual e é claro, o reconhecimento daqueles que ajudaram na superação de nossos traumas, neste caso, a superação dos chifres.
