Teatro infantil: mais que entretenimento, uma necessidade para o cenário e para o espectador

Preciso começar dizendo que sim: posso ser suspeita para falar de teatro infantil. Sempre fui apaixonada por esse segmento e, no momento, inclusive, tenho buscado me desenvolver escrevendo literatura e dramaturgias para esse público. Talvez por isso eu esteja com o olhar ainda mais atento — como criadora e como espectadora. Mas não trago essa reflexão apenas por afinidade. Trago porque, ao me envolver cada vez mais com essa temática, tenho sentido falta de mais produções aprofundadas para a infância. E essa ausência me parece importante demais para não ser transformada em texto.

Vale comentar também que diversas produções incríveis para crianças que vi ultimamente tinham muitos lugares vagos na plateia. E olhando ao redor era raro ver pessoas que, assim como eu, iam assistir à peça sozinha, sem ter “seus baixinhos” para acompanhar. O que me levou a pensar: “que pena! Tenho certeza que seria uma experiência incrível pra MUITOS adultos e idosos que conheço”.

Falar de teatro infantil não é falar de algo menor, simplificado ou provisório. É falar de linguagem, de ética, de escuta e de responsabilidade artística. É falar de como escolhemos dialogar com as crianças e, inevitavelmente, com os adultos que estão ao lado delas. Mais do que isso, é pensar sobre como fazer com que pessoas de todas as idades queiram efetivamente estar na plateia, independente de serem acompanhantes mas, sim, por poderem simplesmente “se permitir” serem um pouco mais crianças também.

O que o teatro infantil desenvolve — e por que isso importa

O teatro feito para a infância é, antes de tudo, um exercício de precisão. Por mais que muitos pensem o contrário, quando realmente efetivo, não há espaço para excesso de ruído ou soluções fáceis. A criança percebe quando algo não é verdadeiro, quando o conflito é raso, quando a emoção é simulada, quando a narrativa não confia na sua inteligência.

Por isso, quando bem realizado, o teatro infantil desenvolve muito mais do que repertório cultural. Ele amplia o vocabulário emocional, estimula a empatia, fortalece a imaginação e a capacidade simbólica, além de convidar à escuta e à presença — algo cada vez mais raro. Diferente de experiências mediadas por telas, o teatro exige tempo compartilhado, silêncio coletivo e atenção plena.

Esse tipo de vivência estrutura subjetividades mais sensíveis, mais críticas e mais abertas ao diálogo. E isso, por si só, já justificaria a necessidade de mais produções dedicadas à infância. Mas retomo o ponto de que, para mim, é fundamental pensar no teatro infantil para além dos pequenos.

A criança interior que também precisa de plateia

Tenho assistido muitas peças infantis. Primeiro porque gosto. Segundo, pelo que elas me despertam: reflexões e sentimentos que eu gosto de sentir. Sempre saio verdadeiramente tocada de alguma forma. E, ainda, porque acho fascinante observar o que acontece com os adultos na plateia. É impressionante como, nesses espetáculos, eles se permitem sentir e acessar lugares que, em outros espaços, não acessam.

Na última semana assisti Agora é minha vez, do Grupo de Pesquisa em Teatro Para Infância. Ali, mais uma vez, isso ficou muito evidente. Já no início do espetáculo, ouvi pais falando não apenas sobre as crianças, mas sobre si mesmos. Falando de medos, tristezas e inseguranças que, talvez, não encontrem muito espaço legítimo de expressão no cotidiano. Senti uma ânsia pela nostalgia e por reviver memórias ou, ainda, por criar lembranças em espaços que antes eram vazio. Assisti também uma produção de O Mágico de Oz, da Cultura Mix Produções, e vi adultos sorrindo ao lembrar da história e torcendo para que cada personagem alcançasse seu objetivo.

Essa é a questão: teatro infantil cria um ambiente de permissão. A infância autoriza perguntas diretas, emoções expostas, reações sem filtro. E independente da idade, ao acompanhar, percebemos que podemos baixar a guarda. Rir alto, se emocionar, vibrar, dizer “eu também tenho medo”. Uma vulnerabilidade profundamente bonita – e necessária.

Foto Gabi Marcato

Vivemos em uma sociedade que nos exige controle constante, produtividade e respostas rápidas. Poucos espaços legitimam a fragilidade como potência e, no teatro para a infância, ela é ponto de partida. Quando a gente verbaliza uma emoção após um espetáculo, não estamos apenas comentando a obra mas, sim, oferecendo uma autorização silenciosa: sentir é permitido.

Por que precisamos de mais produções teatrais infantis

Com tudo isso, reforço a necessidade de entender o teatro como uma ferramenta de formação humana e não apenas como entretenimento. O setor necessita cada vez mais de profundidade em suas produções e narrativas o que, em produções infantis, fica ainda mais claro. É uma urgência cultural: mais incentivo a grupos pesquisando linguagem para a infância, dramaturgias que não subestimem a complexidade emocional das crianças, políticas públicas que garantam acesso contínuo e diverso a esse tipo de experiência.

Mas não somente: precisamos que os adultos ocupem essas plateias de forma presente. Não como acompanhantes distraídos, mas como espectadores disponíveis que aproveitem a raridade do que essas peças nos oferecem: a possibilidade de inteireza. Se abrirmos nosso coração a absorver o que esse ambiente pode proporcionar, poderemos nos desenvolver como reais apoiadores da cultura e como seres humanos, que entendem o papel do teatro.

Crianças vivem o presente com intensidade. Adultos, muitas vezes, vivem projetados no amanhã. No escuro do teatro, essas temporalidades se encontram. E quando isso acontece, algo se reorganiza. Dito isso, que tal incluir na sua programadas mais peças lúdicas, que possam inicialmente parecer que “não são pra você”, mesmo sem ter uma criança para levar?

Não se trata apenas de formar público. Trata-se de formar pessoas capazes de sentir, escutar e elaborar o mundo com mais delicadeza. Se há algo profundamente necessário — e até político — no nosso tempo, talvez seja exatamente isso: criar e sustentar espaços onde adultos e crianças possam, juntos, reaprender a sentir.

Foto de capa Gabi Marcato

About The Author

Mais do mesmo autor

Tragicomédia “Humanismo Selvagem” estreia nova temporada no Guairinha e inicia circulação nacional com patrocínio da Petrobras

Panorama de Estreias: o que chega aos cinemas e ao streaming entre 16 e 21 de fevereiro