Reparação: Quando o banal também começa a incomodar quem sente

Por Gabi Coutinho

Começou o 34º Festival de Curitiba, e minha maratona já iniciou com “Reparação”, do Carlos Canhameiro, no Sesc da Esquina. A primeira sessão já foi suficiente para me lembrar por que amo tanto essas duas semanas intensas de arte e correria (não que em algum momento eu tivesse esquecido disso), e também reforçou algo essencial: como é fundamental que cada vez mais pessoas tenham acesso e assistam a peças como essa.

“Reparação” é um espetáculo que me capturou primeiro pelos olhos. O cenário do salão de beleza dos anos 80 é esteticamente deslumbrante, carregado de um certo maximalismo que remete a uma grande novela: vibrante, quase exagerado, cheio de vida. Esse universo visual, no entanto, ganha ainda mais força quando é colocado em contraste com as projeções em preto e branco que imitam a televisão antiga. Enquanto o palco pulsa com cor e calor, as imagens projetadas trazem uma frieza documental e um ar de “coisa antiga”, criando um diálogo direto entre memória, ficção e realidade. Esse contraponto não é apenas bonito mas, sim, dramaturgicamente potente.

A combinação evidencia as possibilidades de uma peça verdadeiramente multimídia. As projeções não são decorativas; elas expandem a narrativa, acrescentam camadas, criam atmosferas e, por vezes, funcionam quase como um comentário silencioso do que estamos vendo. A música ao vivo, o cenário vibrante, os vídeos e a atuação se entrelaçam de forma orgânica, mostrando como o teatro pode dialogar com diferentes linguagens sem perder sua essência. Pelo contrário, é nesses cruzamentos, quando bem executados, que ele ganha ainda mais densidade.

A encenação caminha o tempo todo numa linha muito delicada entre o riso e o incômodo. Confesso que, em alguns momentos, me senti constrangida quando o riso escapou. Era aquele riso nervoso, quase involuntário, que surge justamente quando algo parece errado demais para ser confortável. E é nesse desconforto que a peça acerta: ela nos faz perceber o quanto o humor pode ser uma defesa, mas também uma forma de evidenciar a violência que está sendo exposta.

Também houve instantes em que senti uma certa “frieza” na atuação, como se a cena não me puxasse emocionalmente, não me convidasse a sentir de forma direta. Num primeiro momento, isso me causou incômodo — parecia um distanciamento que me afastava do que estava sendo contado. Mas, aos poucos, me peguei questionando: será que isso também não foi pensado? Será que essa não é justamente a linha escolhida para provocar essa perturbação de “não sentir”? Porque talvez esse distanciamento revele algo ainda mais desconfortável: o quanto, diante de temas tão fortes e delicados, muitas vezes a sociedade também reage com frieza, com normalização, sem dar a devida importância.

Confesso talvez ter sentido falta de uma voz feminina na composição dramatúrgica e também na direção, mas o dinamismo que Carlos Canhameiro constrói ao contrapor o drama do caso real com o cotidiano do salão é muito eficaz. A rotina aparentemente banal, as conversas e pequenas situações do dia a dia se chocam com a profundidade da história. A música surge nesse meio-termo: emociona, mas também incomoda, impedindo qualquer acomodação. Com Roupa Nova sendo cantado pelos próprios artistas, intensificamos essa viagem no tempo e o envolvimento com a trama, seja pela temática ou mesmo pelos recursos. Entre o brega e o exagero de intervenções, confesso que fui pega pelo envolvimento.

Foto Annelize Tozetto

Outro gesto que considero genial, por menor que possa parecer, é a presença de uma manicure e de uma cabeleireira reais em cena. Essa escolha traz uma naturalidade impressionante, quase documental, que ancora o espetáculo em algo concreto. Enquanto os atores transitam entre personagens e discursos, elas permanecem ali, com uma verdade cotidiana que reforça o contraste entre ficção e realidade. Essa mistura amplia a sensação de que estamos vendo algo que ultrapassa o palco.

Pessoalmente, houve momentos em que me peguei literalmente sem respirar. Como mulher, foi impossível não me atravessar pela posição que a mulher assume na peça, pelas camadas de violência e silenciamento que aparecem. A narrativa, mesmo quando leve na forma, carrega um peso que vai se acumulando. Em certos instantes, senti o corpo reagir antes mesmo do pensamento, dividido entre silêncio interno e aperto.

“Reparação” é uma experiência que seduz e provoca entre o riso e a tensão. A peça constrói um espaço onde a estética encanta, mas o conteúdo insiste em nos cutucar. E quando a luz se apaga, fica a sensação de que algo ali continua ecoando, seja pela forma, pelo caso narrado e, tanto quanto, pelo que ela revela sobre nós.

Foto de capa Annelize Tozetto

About The Author

Mais do mesmo autor

O Teatro como Antídoto: A clarividência do Grupo Galpão em meio ao caos

Um mergulho em (Um) Ensaio sobre a Cegueira – Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são.