Reparação no Festival de Curitiba: a força de uma história real em cena

Apresentada no Festival de Curitiba, com sessões nos dias 31 de março e 1º de abril, no Teatro SESC da Esquina, a peça Reparação, com encenação e dramaturgia de Carlos Canhameiro, parte de uma pergunta incômoda, e talvez sem resposta: como reparar o irreparável?

Uma mulher foi violentada. E esse caso é real.

A informação, já presente na sinopse, não surpreende. Estamos, de certa forma, acostumados. A violência contra mulheres atravessa o noticiário, a literatura, o cinema, o cotidiano. Mas o que Reparação faz não é repetir o fato, e sim tensionar suas reverberações. O que acontece depois? Como esse instante atravessa a vida da vítima, dos agressores, da família, da cidade? Como esse evento ecoa seis, dez, trinta anos depois?

A peça combina depoimentos, ficção e drama para reconstruir esse episódio e, sobretudo, suas consequências. Para isso, Canhameiro realizou entrevistas com moradores e pessoas ligadas à história, preservando suas vozes em transcrições que se entrelaçam com cenas ficcionais.

“No início da peça é anunciado que os relatos são transcrições de entrevistas realizadas até 2016 e que não serão citados os nomes, a cidade, nem o caso em si”, explica o diretor.

Essa escolha não apenas protege identidades, mas amplia o alcance da narrativa. A história deixa de ser de alguém específico para se tornar estrutural. Poderia ser qualquer cidade. Poderia ser qualquer mulher.

“A peça não é um teatro documentário, a peça não é uma denúncia, a peça é uma tentativa de fazer teatro com as inúmeras tragédias que o Brasil tem […] A obra funciona como um eco da realidade, despertando reflexão e sensibilidade diante da violência, enquanto reforça a necessidade de ações políticas e abrangentes para reduzir drasticamente esses índices”, avalia Canhameiro.

E ele consegue. Ao apostar na experiência, Canhameiro atinge seu objetivo e faz teatro com “T” maiúsculo.

Foto Annelize Tozetto

A encenação se passa em um salão de beleza dos anos 80, ao som do pop oitentista do grupo Roupa Nova. Entre escovas, esmaltes e conversas aparentemente banais, a violência vai sendo reconstruída em fragmentos. O cotidiano funciona como um contraste potente. Enquanto histórias densas emergem, o ambiente insiste na leveza superficial da rotina.

As inserções musicais são especialmente eficazes. O repertório nostálgico cria uma atmosfera familiar, quase acolhedora, que entra em choque com o que está sendo dito. Esse contraste evidencia o quanto a violência pode ser absorvida e naturalizada no cotidiano, transformando-se, com o tempo, em narrativa compartilhada, em comentário casual.

A presença em cena de uma manicure e uma cabeleireira que não são atrizes reforça essa aproximação com o real. São presenças que carregam uma verdade própria, escapando da construção teatral tradicional e tensionando a fronteira entre representação e realidade.

Segundo a atriz Marilene Gramaa, a peça evidencia como se forma uma rede social e política de acobertamento da violência:

“Há essa máscara da masculinidade de querer tirar o ‘problema’ da frente. Enquanto mulher, já passei por circunstâncias de violência. Acho que a gente vai vendo uma sofisticação dos mecanismos repetir a mesma narrativa. Mas não adianta colocar embaixo do tapete. Em algum momento, as coisas vão estourar, como acontece na peça. E nem sempre é de uma forma bacana que isso vai acontecer”.

Essa lógica atravessa toda a estrutura da montagem. Reparação não segue uma ordem cronológica. A narrativa se constrói aos poucos, a partir dos relatos, criando uma sensação de simultaneidade. O passado não está encerrado. Ele convive com o presente, atravessa o agora. O tempo, aqui, não é cura. É permanência.

Um dos aspectos mais potentes da peça é justamente mostrar como histórias profundamente violentas, com o passar dos anos, podem ser deslocadas para o campo do cotidiano. O que um dia foi trauma passa a circular como relato compartilhado, quase como uma conversa de salão. Não por banalização intencional, mas por um processo social que transforma dor em algo aparentemente assimilável.

Ainda assim, a peça evita um caminho recorrente. Não há exposição da vítima em sua vulnerabilidade. Ao contrário, existe um cuidado evidente em não transformar sofrimento em espetáculo. Reparação aborda temas sensíveis sem recorrer à exploração da dor, mantendo a mulher fora de uma posição de inferioridade, mesmo diante da violência sofrida.

Foto Annelize Tozetto

A construção do enredo também merece destaque. Ao optar por uma narrativa fragmentada, que se revela a partir de diferentes pontos de vista, a peça mantém o espectador em estado constante de atenção. Não há linearidade confortável. Há montagem, sobreposição, escuta ativa.

Esse envolvimento começa desde a entrada do público. O espetáculo já está em curso quando a plateia é permitida na sala, criando uma sensação de pertencimento imediato. Não há um começo claramente marcado. O espectador não apenas assiste. Ele chega no meio, observa, escuta, compõe.

O cenário é utilizado com inteligência, sem excessos, mas com precisão. O salão deixa de ser apenas um espaço físico e se torna um dispositivo simbólico onde histórias circulam, se transformam e, muitas vezes, se distorcem.

Reparação não oferece respostas. Não há resolução, nem alívio. O que permanece é a sensação de continuidade. Certas violências não terminam no ato. Elas se prolongam no tempo, nos discursos, nas relações.

E talvez seja justamente por isso que a pergunta inicial continue ecoando para além do espetáculo: como reparar o irreparável?

Foto de capa Annelize Tozetto

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