Por Gabi Coutinho
Houve um tempo em que a gente mofou?
Não sei exatamente quando, mas se aconteceu não foi de repente. Não apareceu uma mancha visível, nem um cheiro forte denunciando.
Foi mais silencioso, como fruta madura esquecida no fundo da geladeira. Como um liquidificador antigo, ainda em cima da pia, que já não gira mais, mesmo que o botão ainda faça “clique”.
A lembrança ainda era doce, fazia parecer coisa fresca. Me permitia lembrar da cozinha da casa da minha avó, no interior de Santa Catarina, como se tivesse sido ontem.
O janelão ocupava quase toda a parede, deixando entrar uma luz branca que batia nos azulejos azuis. Era uma luz que parecia ter gosto de leite morno, adoçado com groselha. O fogão a lenha respirava devagar, e o ar tinha cheiro de café passado, madeira quente e um cozido sendo preparado dentro da panela de barro.
Havia sempre uma bandeja ao lado do fogão, coberta com um pano de prato. Eu levantava a pontinha, como quem abre a cortina de um teatro, e lá estava o mesmo de sempre: o inesperado. Às vezes um bolo de milho, às vezes uma cuca, às vezes biscoitos ainda pálidos.
Era sempre uma surpresa. E sempre intocável. A cena só aconteceria quando a mesa estivesse posta.
Minha imaginação também funcionava assim.
Eu temperava o mundo.
As nuvens eram algodão-doce esquecido no céu. As árvores, brócolis enormes plantados para alimentar gigantes invisíveis. O vento, era cheiro de pão que passava correndo pela rua.
Eu conversava com panelas, mexia o ar como quem mistura massa, e transformava qualquer silêncio em receita. Inventava sabores que não existiam.
Havia paciência para deixar crescer, esperar fermentar. O medo não impedia de brincar, de lamber massa crua e colocar pra assar sem receio de errar o ponto.
Até que depois, não sei quando, comecei a guardar tudo em potes. Guardei a imaginação como compota, bem fechada com medo de estragar. Coloquei etiquetas: “quando der”, “para depois”, “em outra fase”.
Fui deixando a vida mais prática e tudo virou comida de micro-ondas.
Virei pastel de vento: bonito por fora, crocante até, mas faltando alguma coisa dentro. Não era ruim, mas já não surpreendia.
Já não escorria.
Já não sujava os dedos.
Achei que estava conservando o sabor, mas até a conserva se ficar fechada demais… azeda. Esqueci quase tarde demais que as coisas tem prazo de validade.
Até que um dia sentei numa plateia. As luzes apagaram como quem fecha a porta da cozinha para o almoço começar.
No escuro, senti o cheiro da infância voltando devagar. Ri antes de entender. Chorei como quem prova algo esquecido, que acha nunca ter conhecido mas logo percebe que aquilo era saudade.
Senti o corpo amolecer, como massa que volta a crescer depois de descansar.
Ali, sentada, eu não precisava cozinhar nada. Só deixar ferver por dentro e sentir os sentidos aguçados um por um.
O cheirinho de imaginação, o gosto das histórias, a vontade de misturar tudo pra só no final descobrir a delícia completa.
Saí do teatro com a sensação de ter aberto um forno antigo, com muita coisa ali que ainda não havia mofado. Deixei a louça pra depois e coloquei o forno pra pré-aquecer.
Mesmo sem saber o que viria, havia calor. Coração quentinho e o sabor de um mundo de possibilidades.
“Quando foi que a gente mofou” é um conto de Gabi Coutinho, inspirado na peça “Como Cozinhar uma Criança”, da Trupicada, na Mostra Insubmissa no 34° Festival de Curitiba.
Um ingrediente essencial na vida de uma escritora sonhadora, que vive em busca da sua criança interior que nunca mofou.
Ficha Técnica
Grilla! / Trupicada / Trupe Qualquer / Texto Original: Afonso Cruz / Dramaturgia e Direção: Tairone Vale / Elenco: Lívia Gomes e Felipe Tavares / Trilha Sonora Original: Felipe Tavares e Tairone Vale / Direção de Arte: Jacqueline Oliveira / Cenotécnico: Corélio Rosa / Figurino: Jacqueline Oliveira / Iluminação: Raíssa Salgado / Coordenação de Produção: Lívia Gomes / Produção: Grilla!, por Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Jhully / Assessoria de Imprensa: Grilla!, por Pri Helena e Rebeca Figueiredo / Fotografia Still: Marcella Calixto / Designer: Gabriel Bittencourt.
Foto de capa Marcella Calixto

