Prima Facie: “Olhe para sua direita, olhe para sua esquerda. Uma de nós.”

Por Maduh Cavalli

Algumas peças transcendem o palco, mostram a vida nua e crua, elas nos conduzem ao desconforto, e sem pedir licença, nos fazem questionar o mundo à nossa volta. Prima Facie, protagonizada por uma atuação intensa e brilhante de Débora Falabella, é uma dessas experiências. Apresentada na 33ª Edição do Festival de Curitiba, a peça dirigida por Yara de Novaes, não trouxe apenas um texto forte e impactante, mas também um espelho cruel da realidade que muitas vezes a sociedade insiste em não enxergar.

Escrita por Suzie Miller, a peça apresenta Tessa, uma advogada brilhante que construiu sua carreira acreditando na lógica fria do sistema jurídico. Para ela, justiça é um jogo de provas e argumentos. Mas essa visão desmorona quando ela própria se torna vítima de um crime e se vê do outro lado do tribunal, onde as regras parecem ter sido escritas contra ela.

Débora Falabella se entrega de corpo e alma ao papel, sua expressão em cena e a forma como interpreta o texto é admirável, ela sustenta a personagem por quase duas horas e com isso consegue a atenção do público do começo ao fim. No início, sua Tessa é confiante, está em um momento ótimo da carreira, mas, conforme o espetáculo avança, vemos suas certezas se fragmentarem e sua luta se tornar cada vez mais dolorosa. O palco, antes um tribunal de argumentação, se torna um espaço de resistência. O que a atriz faz não é apenas atuar, ela faz o público sentir cada emoção, cada mudança, cada transbordamento.

Não há distrações durante o texto, Débora amplifica cada palavra, cada silêncio, em cena é visto apenas Tessa e sua verdade. Talvez, essa seja a grande potência do teatro: sua capacidade de nos colocar cara a cara com histórias que não podemos ignorar, colocar o humano de frente com ele mesmo. Prima Facie nos obriga a enxergar como existe a falha com as mulheres dentro do sistema, como a justiça muitas vezes é apenas um conceito abstrato, e como a dor das vítimas é constantemente questionada.

Ao final da peça, o público não aplaude apenas Débora Falabella, aplaude também a coragem de trazer essa conversa ao palco. Aplaude a arte que incomoda, que denuncia, que transforma. Prima Facie não é apenas um espetáculo. É um grito, e, acima de tudo, um convite para que jamais nos calemos diante da injustiça. Alguma coisa tem que mudar.

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