Um dos fenômenos que os reels do Instagram e os vídeos do TikTok vêm proporcionando há anos é o resgate de músicas antigas, que voltam a circular e se tornam virais entre jovens que nem eram nascidos na época de seu lançamento. Entretanto, a banda ABBA apresenta um movimento único: diversas músicas de seu catálogo circulam constantemente entre vídeos curtos. E não estamos falando de um ou dois sucessos isolados, como costuma acontecer com muitos artistas, mas sim de vários, como The Winner Takes It All, Lay All Your Love on Me, Slipping Through My Fingers, Gimme! Gimme! Gimme!, Fernando e Dancing Queen.
Mas o que torna essas músicas tão presentes e reutilizáveis nas redes?
O primeiro ponto a ser observado são os refrões. As canções do ABBA possuem refrões extremamente marcantes e carregados de emoção, que acabam sendo fáceis de sincronizar com vídeos curtos e capazes de transmitir rapidamente uma carga emocional intensa. Isso acontece, por exemplo, quando trechos dramáticos são usados para reforçar narrativas pessoais, viradas de roteiro ou momentos de impacto emocional dentro do vídeo, como ocorre com The Winner Takes It All.
Além disso, outras músicas do grupo seguem essa mesma lógica de construção emocional e memorização rápida, como Dancing Queen, que funciona bem em conteúdos celebratórios, e Lay All Your Love on Me, frequentemente usada em vídeos com clima mais romântico ou dramático.
Mas não são só trechos marcantes que são responsáveis por esse fenômeno, é nostalgia ligada a forma como as redes sociais introduzem elementos do passado como referências visuais e sonoras que conectam diferentes gerações. Esse movimento, muitas vezes chamado de nostalgia, mostra que o passado não está sendo simplesmente relembrado, mas reinterpretado e ressignificado: filtros retrô, vídeos com estética VHS e playlists dedicadas a décadas específicas são exemplos de como o ambiente digital transforma memórias culturais em conteúdo compartilhável.
O crítico musical Simon Reynolds, autor de Retromania, afirma que a cultura pop contemporânea vive “uma era obcecada pelo retrô e pelos retornos”. A observação ajuda a explicar por que músicas de décadas passadas voltam a circular com força nas redes sociais, criando identificação e conexão simbólica com épocas que muitos usuários, especialmente da Geração Z, nem sequer viveram.

Outro fator determinante para esse fenômeno é o funcionamento do próprio algoritmo das plataformas. Quando um reel começa a performar bem com visualizações, compartilhamentos e retenção de público ele passa a ser impulsionado para um número maior de usuários, criando um ciclo contínuo de exposição.
Nesse processo, quanto mais um vídeo é visto, maiores são as chances de ele ser recomendado novamente pela plataforma. A repetição acaba incentivando novos criadores a utilizarem o mesmo áudio em seus conteúdos, gerando um efeito de retroalimentação que amplia ainda mais a circulação da música dentro dos vídeos curtos.
Dessa forma por consequência dos algoritmos, pelo fator de nostalgia as músicas do ABBA continuam extremamente presentes nas redes sociais. Apesar de terem sido lançadas na década de 1970, as músicas europop do ABBA possuem uma produção e estrutura melódica que soam surpreendentemente modernas. Essa característica ajuda também a explicar por que o repertório do grupo continua dialogando com as novas gerações.

