Inserida na Mostra Lúcia Camargo, eixo central e curatorial do Festival de Curitiba, a montagem de Dias Felizes, dirigida por Paulo de Moraes, vem do Rio de Janeiro com uma encenação bastante visual. A peça se inicia com um cenário árido e rochoso, praticamente um deserto, e ao fundo um sol laranja e escaldante.
Presa nesse deserto está Winnie, com suas pernas enterradas. Ao seu lado estão sua bolsa e seu guarda-chuva, e mais distante aparece a figura de Willie, marcada pela indiferença, pelo silêncio e pela distância em relação a Winnie. O deserto representa o vazio e o esgotamento do mundo, enquanto Willie reforça a fragilidade das relações humanas.
Winnie também está acompanhada de sua bolsa, com diversos itens como espelho, batom, escova de dentes e até mesmo um revólver. Mesmo à beira de colapsar, ela tenta manter o otimismo dentro de um espaço completamente vazio e inóspito. Willie, diferente dela, ainda consegue se mover, mas ao subir a rampa acaba caindo, enquanto Winnie permanece ancorada no mesmo lugar. Ele é reduzido a um corpo que cai e falha, mostrando uma vida sem progresso, marcada por um esforço inútil.

A bolsa representa o único território em que Winnie ainda tem controle. Nela, os objetos ajudam a reafirmar sua identidade: o espelho permite que ela ainda se reconheça, enquanto o batom funciona como uma tentativa de manter certa normalidade naquele cenário. Já o revólver contrasta com esses objetos cotidianos, podendo representar uma possível saída para a situação em que Winnie se encontra.
No segundo ato, Winnie aparece ainda mais presa, restando apenas sua cabeça visível. O telão, que antes mostrava o sol, passa a exibir seu rosto em diferentes ângulos, destacando cada detalhe de sua expressão. Nesse momento, ela se mostra ainda mais solitária, e o revólver ganha mais destaque, sugerindo que um fim pode ser a única forma de escapar daquela realidade.
Ao ampliar o rosto de Winnie em cena, a montagem desloca o foco para a interioridade da personagem, enquanto o espaço árido ao seu redor deixa de ser apenas abstrato e passa a sugerir um mundo em ruínas. A ampliação de sua imagem, junto com o esvaziamento do ambiente, cria uma imagem forte da solidão contemporânea.
Patrícia Selonk constrói uma Winnie intensa e precisa, sustentada pela repetição quase obsessiva de “dias felizes”, tentando manter um otimismo que se mostra cada vez mais frágil. Sua atuação evidencia, de forma sutil, o desgaste provocado pela rotina e pela solidão, transformando a imobilidade da personagem em um processo dramático contínuo.

A montagem consegue atualizar os sentidos da obra ao aproximar o absurdo de questões atuais, fazendo com que a condição de Winnie deixe de ser distante e passe a dialogar com a sensação de esgotamento e repetição da vida contemporânea.
Assim dias felizes não se destaca apenas pela sua força visual, mas como transformar o absurdo em algo próximo do cotidiano. Ao mostrar o esforço de Winnie para manter o otimismo, o espetáculo revela uma existência marcada pela repetição e pela solidão tentando buscar uma saída onde não há mais para onde ir.
Foto de capa Lina Sumizono

