Há obras que se recusam ao acabamento, pois sua natureza é a da eterna transformação. Curitiba teve o privilégio de testemunhar, no Festival de Curitiba 2026, a história das artes cênicas brasileiras ser reescrita pelo Grupo Galpão. Ao decidir enfrentar a densidade literária de José Saramago na montagem “(Um) Ensaios sobre a Cegueira”, a trupe mineira não apenas abraçou o risco, mas saltou no abismo de uma ousadia que faz brotar a dúvida mais fértil do espectador: seria possível transpor tal cegueira para as tábuas do palco?
A resposta reside na direção e dramaturgia de Rodrigo Portella. Sua montagem preenche o vazio existencial da plateia com uma força narrativa que apenas o teatro, em sua essência mais pura e presencial, é capaz de conjurar. As paredes da ficção rompem-se em um brado retumbante; o que se vê não é mera representação, mas uma intervenção cirúrgica na alma coletiva. Do espírito de José Saramago diretamente para Rodrigo Portella, a história se faz presente, ocupando um espaço antes vazio. Um vazio que não poderia jamais ser percebido sem tal intervenção.

Em uma era de atenções fragmentadas e ritmos acelerados, o Galpão realiza o prodígio de sustentar duas horas e meia de espetáculo com uma fluidez inebriante. O tempo, aqui, deixa de ser algoz para tornar-se uma marionete nas mãos de nove intérpretes verdadeiramente olímpicos. A visceralidade do texto questiona, destrói e reconstrói a ideia de humanidade, enquanto o elenco hipnotiza o público com uma precisão técnica onde nem a angústia nem o riso são extemporâneos.
Com a sonoplastia real, sendo produzida ali, diante desses olhos que estão cegos é que a audição caminha para uma força experimental onde será improvável que ela não seja modificada. A iluminação, por sua vez, dialoga com a tensão dos corpos, desenhando no espaço a luta entre a luz da razão e a sombra do instinto.
A direção de Portella não traz a inovação e tão pouco deseja isso. Mas traz o impacto que qualquer cura precisa. Essa cura da cegueira da ignorância social e coletiva. Moral e de costumes, que aprisiona uma sociedade fadada a matar-se todos os dias. A morte silenciosa de cada pedaço de uma alma adoecida pelo mesmo veneno. Essa cegueira é limpa e curada em um ecossistema artístico que apenas o teatro é capaz de engendrar. Está no corpo de cada ator e atriz, em cada palavra dramatúrgica, em cada detalhe cênico.
O que a trupe traz para o centro do palco é fruto de uma construção coletiva, não de seu processo especificamente, mas de uma comunidade. A lá Brasileira, a lá ‘homo sapiens’. O que se vê em cada minuto é a evidência dessa sociedade doente, cega e ignorante.

Ao final, ao levar o público para a liberdade, a trupe firma essa cura, disruptiva e certeira naquilo que se propôs. Mais uma vez, Galpão constrói sua efervescência e sua matriz indispensável para a arte desse país.
Em cena, figurinos comuns, para vidas comuns, representando cegos comuns. Cegos pelo veneno de um basilisco que se escora na pequenez humana e petrificada de forma gélida cada centímetro que um dia sonhou diferente, pensou desvirtuadamente. Cenografia, esta que transporta-nos para dentro de um buraco negro, sugando toda construção coletiva que se espera de um grande show.
Aos poucos e, com muito trabalho, “(Um) Ensaio sobre a Cegueira” se torna um soro antiofídico para este basilisco que contamina uma natureza tão pura. É impossível não se emocionar, não aplaudir e não se viciar em tal soro. A individualidade de cada espectador é posto à prova e se torna inquestionável. Em tempos sombrios, o Grupo Galpão não apenas pulsa vida; eles nos ensinam que, mesmo quando a visão nos falta, é a emoção — esse ensaio de espiritualidade — que torna a nossa existência minimamente significativa.
