O filme que revoltou religiosos: A ousada visão de Scorsese sobre Cristo

“A Última Tentação de Cristo” é uma joia escondida na filmografia de Martin Scorsese. Após o fracasso de seu musical “New York, New York”, Scorsese ficou refém dos estúdios, tendo que mergulhar em diversos projetos dos quais não sentia tanta empolgação. Foi aí que surgiram “Depois de Horas”, “A Cor do Dinheiro”, “O Rei da Comédia”, entre outros… Mas um filme sobre Cristo era um sonho do realizador e, em meio a esse mar agitado da indústria, ele conseguiu realizar esse projeto, mesmo com muitos ajustes na produção devido ao baixo orçamento.

O resultado disso? Boicote total. Se o livro-base de Níkos Kazantzákis já era polêmico, imagina sua adaptação em forma de filme. Pois é, a comunidade católica, evangélica — todos que creem em Cristo como o grande Messias — se enfureceram ao escutarem que esse Jesus tinha suas tentações, assim como qualquer humano.

Era algo completamente diferente do que o mundo tinha visto até então nos anos 80. O mesmo lugar que se chocou quando John Lennon disse que os Beatles eram maiores que Cristo agora não podia crer que o rabino era, antes de ser divino, humano. Começa com a fabulação, “e se…”, iniciando o argumento do longa de Scorsese.

Não há nada de diferente na jornada de Jesus quando comparada com a Bíblia. Vemos sua influência nascendo ao ponto de incomodar os romanos no poder político, as primeiras manifestações e o uso dos milagres, proporcionando cenas extraordinárias — onde o uso do cinema é essencial para traduzir a superempatia de Jesus, como numa montagem de um cidadão comum sendo crucificado e o Messias sentindo o sofrimento desse homem. É quase como se ser filho de Deus fosse um fardo a ser carregado ou ser extremamente sensível àqueles que estão ao seu redor.

E o grande tema que gira e conduz a fita é a tentação, que se manifesta através do medo, do desejo, do orgulho e do poder. Existe até uma fala que soa como uma exposição da jornada de Cristo nessa adaptação: “Sou um mentiroso. Um hipócrita. Tenho medo de tudo. Não digo a verdade. Não tenho coragem. Quando vejo uma mulher, me envergonho e desvio o olhar. Eu a desejo, mas não a tenho, por Deus, e isso me deixa orgulhoso.”

Definitivamente, Jesus é um personagem com várias camadas e muitas contradições. É o retrato mais humano do divino, e o fato de ele ser assim prova sua extrema paixão em relação ao mundo. Deseja pertencer a isso, mas está o tempo todo cercado, lembrado e alfinetado pelas obrigações que Deus lhe deu.

Por ser um filme de época, ele acaba tendo uma escala muito menor na reconstrução desse período, tanto por conta do baixo orçamento quanto pela escolha de ambientes mais contidos na jornada de Cristo. Essa simplicidade pode até atribuir à obra aspectos minimalistas, estando longe dos grandes épicos bíblicos. Um grande acerto, já que o foco do longa é a moral do Messias como figura salvadora.

E se há algo que marca a experiência é a presença do diabo e suas várias faces, sempre testando o protagonista, desafiando-o a cada ponto de virada, sendo a única figura de poderes do além a se comunicar pelo verbo com Jesus. Já a presença de Deus é silenciosa; contudo, está sempre presente através dos dons de seu filho, mas nunca se comunicando de fato. Por causa disso, Jesus não nasce já divino em seu início: tem vergonha de se comunicar, gagueja, desenvolve seu discurso, mas é mal interpretado por alguns dos seguidores, que reagem de maneira contrária ao que o Salvador prega. É fato que isso é, na verdade, a demonstração da dúvida e do medo, pois ele sabe que, no fim, o destino lhe reserva algo inevitável. Se antes construía cruzes para os romanos, resta-lhe fazer parte dessa tortura, morrendo entre os vivos e encerrando assim seu arco humano.

Nesse momento final, Scorsese proporciona uma cena de esperança, dizendo que nunca é tarde para fazer a escolha certa e que a salvação estará o esperando. É um milagre em forma de filme, algo que só o cinema consegue proporcionar, e disso não há dúvida.

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