Nem só biografia, nem só show: o Tim Maia que acontece no palco

Por Thalyta Cavalli

Assistir Tim Maia – Vale Tudo, o Musical foi entrar numa experiência que não se explica de imediato — ela vai se organizando na nossa cabeça enquanto acontece… e continua reverberando depois.

Logo no início, senti dificuldade em me situar na história. Entrei esperando uma narrativa mais linear da vida de Tim Maia, e o espetáculo até tem um certo fio cronológico, mas se organiza principalmente de forma fragmentada, em blocos episódicos. As cenas não seguem uma progressão contínua — vão se construindo por momentos, recortes, fases. De primeira, tive uma leitura “inocente” que veio justamente dessa expectativa de acompanhar uma linha do tempo mais tradicional, mas que, ao passar das horas (e de algumas pesquisas depois), foi se transformando em algo diferente.

A primeira entrada de Tim Maia já deixa claro o jogo: ele nos convida a estar ali como em um show. Repete que “no show do Tim Maia quem manda é o público” — e, em vários momentos, isso é levado a sério mesmo (diga-se pela icônica senhora que levantava e dançava junto às músicas). A partir daí, a peça abraça essa mistura entre show e encenação, alternando entre cenas mais tradicionais e outras bem metalinguísticas.

As cenas que contam partes da história de Tim são interrompidas por esses “quase bastidores”, em que a própria peça tira sarro de si mesma: personagens são chamados e não entram, a produção vira piada, e depois tudo segue normalmente. E assim como em sua entrada, o próprio Tim Maia conduz parte da narrativa quebrando a quarta parede, conversando com a gente e criando uma proximidade que sustenta o espetáculo.

E isso gera uma sensação curiosa: várias vezes eu fiquei me perguntando o que era ensaiado e o que estava acontecendo ali na hora. Essa dúvida, somada à personalidade forte do Tim (muito bem construída em cena), acaba jogando a favor da experiência.

Tem também um humor recorrente — a piada com o restaurante “Gato Preto”, as menções a Curitiba (alô Largo da Ordem) — que aproximam bastante o público. Um dos vários momentos divertidos é o surto coletivo de Marisa Monte: aparecem várias “Marisas” ao mesmo tempo em cena e Tim aproveita para soltar a piadoca: “Marisa aos montes”.

Isso se conecta com uma frase que ficou muito marcada pra mim, logo na sequência, quando o personagem de Nelson Motta entra em cena e encontra o Tim meio confuso, ainda brincando com essa situação das “Marisas”. Ele diz algo como: “isso aqui é um musical, eu estou contando o que está dentro da sua cabeça, Tim”.

Isso quase “explica” a estrutura da peça. Essa forma fragmentada, em blocos, que num primeiro momento pode soar confusa, passa a fazer outro tipo de sentido — como se estivéssemos acompanhando menos uma biografia organizada e mais um fluxo de pensamento. De certa forma, essa ideia cimenta a proposta e chega muito perto de traduzir como seria a história do Tim Maia sendo contada pelo próprio Tim. (Fica a nota: não li o livro no qual a peça se baseia, mas já entrou na lista).

Em alguns trechos, rolou uma confusão com luz apagada que pareceu mais falha técnica do que escolha cênica. Mas nem isso quebrou o clima — o ator incorporou na hora, improvisou, comentou o apagão… e seguiu. Se não era improviso, sinceramente: parecia muito.

Aqui vale um destaque importante pro elenco. Thor Junior mergulha MUITO bem o papel — em vários momentos dá aquela sensação de “ok, estou vendo o Tim Maia aqui”, realmente nos fazendo acreditar em cada palavra. Suzana Santana, como Sandra de Sá, entra no final simplesmente ocupando o palco inteiro. O número em que os dois seguem cantando juntos, Vale Tudo, vira uma festa no palco que inclusive traz uma mudança significativa: agora tá liberado dançar homem com homem e mulher com mulher.

Todos os integrantes do elenco, ninguém menos importante, entregam vozes muito consistentes, um ensemble afiado e bastante versátil, indo e voltando entre coro e ícones da música brasileira com muita segurança.

A banda ao vivo — representando a icônica Banda Vitória Régia — conduz o espetáculo com uma energia constante. As cenas com Elis Regina, Roberto Carlos, Gal Costa, Marisa Monte, Jorge Ben e Sandra de Sá são muito potentes — quase um grande tributo vivo à música brasileira. As músicas não fazem exatamente a história andar, mas deixam muito claro quem foi o Tim em cada fase.

Com cerca de 2h30 de duração, é um espetáculo longo, mas que se sustenta bem. Ao longo desse tempo, fica claro que a dramaturgia não é o foco principal. É uma mistura assumida entre show e encenação, que funciona dentro da proposta, mesmo que eu tenha sentido falta de um pouco mais de densidade dramática em alguns momentos. Independente disso, entendo as escolhas feitas e fico feliz em como elas reverberam em mim.

Do balcão, onde eu estava no começo, entender a história ficou ainda mais difícil. Algumas falas simplesmente se perdiam por conta da acústica — vale dizer que assisti à peça no Festival de Curitiba, no Teatro Guaíra, então essa questão parece estar mais relacionada ao espaço do que ao espetáculo em si, sendo a acústica um pilar muito importante em qualquer peça de teatro musical. Quando consegui ir para a plateia, a experiência virou outra: tudo ficou mais claro, ajudado, inclusive, por uma caixa de som gigante praticamente na minha frente (ainda bem 🙏). É um espetáculo que cresce muito quando essa conexão com o palco acontece de forma mais direta.

Foto Lina Sumizono

Outro ponto que atravessou minha experiência foi o público. A plateia era majoritariamente mais velha e estava completamente entregue — gente chorando no final, super conectada. Eu, por outro lado, me senti meio deslocada às vezes. E isso virou uma reflexão interessante: talvez não seja só sobre público-alvo, mas sobre repertório. Em vários momentos, percebi que não pegava todas as referências — o que provavelmente tem a ver com o fato de eu viver muito mais no mundo da música internacional do que da MPB (assumo a culpa).

Tim Maia – Vale Tudo, O Musical é definitivamente um espetáculo generoso, cheio de energia e afeto, que encontra seu público e entrega exatamente o que promete dentro da sua proposta. No meu caso, além de aproveitar, saio com muitas perguntas, e talvez esse seja um dos méritos do que acabamos de assistir.  Afinal… como canta Tim Maia: navegar eu quero — e aparentemente, ainda tenho muito a descobrir.

Foto de capa Lina Sumizono

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