Unindo o samba com a cultura do Norte, a cantora Alcione lançou um single em parceria com artistas locais nesta sexta-feira (16). Mas entre tantas manifestações culturais do país, sobretudo do Norte, o Marabaixo foi a escolhida para representar o Amapá neste momento. Unindo cultura e religião, o ato representa resistência, fé e ancestralidade das comunidades negras da região.
Sua relevância sociocultural é tão fundamental para o Brasil e para o Norte que em 2018 foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A origem do nome “Marabaixo” remonta a um período de tensão na história da humanidade. Durante o período escravocrata, os negros que morriam durante a travessia do Atlântico nos navios eram jogados no mar. Aqueles que sobreviviam, tomado por suas dores, cantavam que eles iam de “mar abaixo”.
Na cidade de Macapá, a cultura se firmou em bairros tradicionais como o Laguinho e a Favela, onde famílias negras que foram removidas do centro da capital em 1940 se fixaram. O manifesto, então, se tornou um amuleto para união e resistência das famílias frente ao racismo agressivo que sofriam.
Composição “Marabaixo”
A manifestação é composta por três elementos centrais: o som das caixas, o canto do “ladrão” e a dança circular. As Caixas são tambores cilíndricos feitos de forma artesanal com couro animal e madeira. O seu ritmo é marcante e por isso é usado para ditar a intensidade das danças.
O “Ladrão” se refere às cantigas. O termo vem da ideia de pegar os acontecimentos do cotidiano e transformar em músicas, incluindo críticas sociais e versos bíblicos. Já a dança é um dos elementos mais curiosos e divertidos. O movimento é realizado todo em sentido anti-horário com o “pé arrastado”, simulando o movimento de quem outrora carregava correntes nos pés.
As indumentárias femininas também ganham destaques. Chamadas de “marabaixeiras”, elas usam saias rodadas, floridas e blusas com folhos com um toque especial no cabelo com flores naturais. Além de uma toalha sobre o ombro que representa o ato de secar o suor após horas de trabalho ou dança.
O ciclo do Marabaixo
Com o colonialismo europeu, a manifestação também sofreu com mudanças radicais como a adesão ao catolicismo. Atualmente, a festa que ocorre em um único dia durante o ciclo de 60 dias do Marabaixo, faz homenagens ao Espírito Santo e à Santíssima Trindade. É uma mistura entre a religião europeia com os rituais de matriz africana.
Durante a festa, ocorre também o “Marabaixo de Aceitação”, onde a bandeira de um santo é entregue a uma nova família que será a responsável pela festa no ano seguinte. Diferente de outras culturas que super valorizam a figura masculina, no marabaixo são as mulheres consideradas matriarcas e as guardiãs da memória. Os homens são apenas os que tocam as caixas.
A música de Alcione
Alcione é mundialmente reconhecida por seus trabalhos na música, sobretudo de cantigas e ritmos do Norte e Nordeste. Sua participação ocorre num contexto de ampliação da visibilidade do manifesto e da cultura do estado. As obras de domínio público de incluindo obras de Joãozinho Gomes, Val Milhomem, Wendel Uchôa, Marcus Paes e Adelson Preto, além de tradicionais como “Rosa Branca Açucena”, “Vaca Malhada” e “Meu Sarilho é Dobrador”, estão presentes no single.
Ouça a música nova de Alcione:
