Indicado ao Oscar, Kokuho mostra o lado sombrio da busca pela perfeição

Há filmes que impressionam pelo roteiro, outros, pela beleza estética. Em ‘Kokuho – O Preço da Perfeição’, essas duas dimensões caminham juntas. O drama dirigido por Lee Sang-il mergulha no universo do teatro kabuki para construir uma narrativa sobre ambição, rivalidade e devoção absoluta à arte, uma história envolvente que, ao longo de quase três horas de duração, transforma o palco em metáfora para o custo humano da perfeição.

Baseado no romance homônimo do escritor japonês Shuichi Yoshida, o filme acompanha a trajetória de Kikuo, interpretado por Ryô Yoshizawa na fase adulta e por Sōya Kurokawa na juventude. Filho de um líder da yakuza assassinado por rivais, o garoto vê sua vida mudar radicalmente ao ser acolhido por um lendário ator de kabuki, Hanai Hanjiro, interpretado por Ken Watanabe. Sob sua tutela, Kikuo passa a treinar na arte tradicional japonesa ao lado de Shunsuke, o filho biológico do mestre, vivido por Ryusei Yokohama, relação que começa como uma fraternidade e evolui para uma rivalidade complexa, marcada por admiração, competição e silêncio.

A narrativa atravessa décadas acompanhando a formação desses dois artistas dentro de um universo rígido e profundamente hierárquico. No kabuki, cada gesto é repetido até a exaustão, cada movimento possui significado histórico e cada ator carrega o peso de uma tradição que atravessa gerações. Nesse contexto, talento e disciplina não são suficientes: é preciso suportar as expectativas, a pressão e o sacrifício exigidos por uma arte que exige perfeição absoluta.

Se a história é envolvente, o aspecto técnico do filme é igualmente impressionante. Com 174 minutos de duração, o longa aposta em uma construção épica que acompanha a transformação de seus personagens ao longo do tempo. O roteiro de Satoko Okudera adapta um romance extenso, com mais de 800 páginas, e consegue preservar a dimensão emocional da obra sem perder o ritmo narrativo. O crítico Carlos Aguilar, da Variety, observou que o filme consegue transformar sua longa duração em um percurso emocional consistente, equilibrando espetáculo visual e drama íntimo, evitando que o tempo de projeção se torne excessivo para o espectador.

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Visualmente, o longa é deslumbrante. A fotografia de Sofian El Fani, conhecida por trabalhos que exploram texturas e atmosferas visuais marcantes, valoriza tanto a grandiosidade dos palcos quanto os detalhes minuciosos da tradição kabuki: maquiagem, figurinos, tecidos, movimentos e expressões cuidadosamente coreografadas. Cada apresentação se transforma em um espetáculo visual, quase ritualístico, que revela emoções internas dos personagens enquanto expõe a beleza formal dessa tradição teatral.

Esse cuidado estético se estende a toda a equipe técnica. A direção de arte de Yohei Taneda recria ambientes que transitam entre bastidores austeros e palcos exuberantes, enquanto o figurino de Kumiko Ogawa contribui para a construção visual da tradição kabuki. A montagem de Tsuyoshi Imai equilibra a dimensão íntima dos personagens com a grandiosidade das apresentações, criando um fluxo narrativo que alterna drama pessoal e espetáculo teatral.

Não por acaso, o filme recebeu reconhecimento internacional por sua dimensão estética. O trabalho de maquiagem e penteado, fundamental para representar os códigos visuais do kabuki, chegou a figurar entre os indicados ao Oscar 2026, reconhecimento que evidencia o cuidado técnico da produção.

Mas talvez o aspecto mais interessante de ‘Kokuho – O Preço da Perfeição’ seja a maneira como utiliza esse universo artístico para discutir ambição e identidade. Kikuo carrega consigo o peso de um passado marcado pela violência da yakuza, enquanto tenta se reinventar dentro de uma tradição artística extremamente rígida. Shunsuke, por sua vez, vive à sombra de um legado familiar que parece determinar seu destino. Entre admiração e rivalidade, os dois personagens revelam como a arte pode aproximar, e ao mesmo tempo separar, aqueles que dedicam a vida a ela.

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É nesse ponto que o filme encontra sua reflexão central. A busca pela perfeição, tão celebrada no universo artístico, também pode se tornar uma prisão. Ao acompanhar a obsessão de seus personagens pelo reconhecimento máximo dentro do kabuki, tornar-se um verdadeiro “tesouro nacional”, significado literal da palavra kokuho, o longa deixa pairar uma pergunta silenciosa ao longo da narrativa: até que ponto vale a pena pagar o preço da excelência?

No fim, a trajetória de seus protagonistas parece ecoar uma advertência antiga e universal: cuidado com aquilo que você deseja, porque pode acabar conseguindo. Em ‘Kokuho – O Preço da Perfeição’, alcançar o topo significa também abrir mão de partes essenciais de si mesmo. E é justamente nessa tensão entre beleza, disciplina e sacrifício que o filme encontra sua maior força dramática.

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