O estilista italiano, único desde Coco Chanel a causar uma transformação duradoura na indumentária global, deixa um legado que vai do poder do terno feminino ao lifestyle de luxo. Sua história foi marcada por superação, talento visionário e uma parceria pessoal e profissional fundamental.
MILÃO – Giorgio Armani, o visionário que suavizou o poder para os homens e o emprestou às mulheres através do terno, faleceu na quinta-feira (4/9), aos 91 anos. Considerado o estilista mais influente desde Coco Chanel, Armani provocou uma mudança de paradigma na moda, democratizando o luxo e redefinindo a elegância casual para o século XX e além.
Nascido em 11 de julho de 1934, em Piacenza, no norte da Itália, a infância de Armani foi profundamente marcada pela Segunda Guerra Mundial. A confortável vida de classe média de sua família foi destruída pelo conflito, e sua memória mais antiga, como ele mesmo relatou, era a fome.
Sua jornada para o mundo da moda foi indireta. Iniciou os estudos de medicina em 1956, mas abandonou o curso após três anos para servir ao exército. Insatisfeito com a vida militar, conseguiu um emprego como vitrinista na famosa loja de departamentos La Rinascente, em Milão. Foi ali que seu talento floresceu. Ao subir rapidamente de cargo, aprendeu a entender os desejos dos clientes, visitou fábricas para aprender sobre tecidos e tornou-se um especialista em alfaiataria, um conhecimento que se tornaria a base de seu império.
Seu salto para o design veio ao trabalhar com o influente estilista Nino Cerruti. Percebendo que as classes médias dos anos 1960 ansiavam por estilo, mas não podiam pagar pela alta-costura, Armani encontrou sua vocação: criar roupas de alfaiataria impecáveis, com materiais finos, mas produzidas em escala industrial.
O ponto crucial de sua vida, tanto pessoal quanto profissional, foi o encontro com Sergio Galeotti em 1966. O jovem aprendiz de arquiteto abandonou sua carreira e, com absoluta confiança no talento do parceiro, encorajou-o a abrir sua própria empresa. Galeotti vendeu seu carro para levantar o capital inicial e assumiu a parte comercial. Seu primeiro escritório era modesto e mal iluminado, mas a revolução que gestaram ali foi monumental.
A visão de Armani para as mulheres foi particularmente transformadora. Seus tailleurs elegantes e poderosos ofereciam uma alternativa que exalava feminilidade e, simultaneamente, era uma declaração de igualdade e autoridade no ambiente de trabalho.
O sucesso massivo veio com o acordo de licenciamento com o fabricante GFT em 1978, que permitiu a produção de roupas de luxo em larga escala. A consagração pop ocorreu dois anos depois, quando vestiu Richard Gere em “Gigolô Americano” (1980), um golpe de marketing genial que catapultou a marca para o estrelato global. A partir daí, tornou-se presença constante no tapete vermelho do Oscar e em produções como “Os Intocáveis” e “Miami Vice”.
Armani então expandiu metodicamente seu império, lançando linhas como Armani Jeans e Emporio Armani, além de fragrâncias com a L’Oréal, óculos, cosméticos e uma linha esportiva, criando um abrangente “estilo de vida Armani”.
A tragédia pessoal atingiu o estilista em 1985, com a morte de Sergio Galeotti, aos 40 anos, vítima de uma doença relacionada ao HIV. Em uma rara entrevista em 2001, ao ser questionado sobre seu maior fracasso, Armani respondeu: “Não conseguir impedir a morte do meu parceiro”.
Seu legado foi eternizado em uma grande exposição no Museu Guggenheim de Nova York em 2000, e seu império expandiu-se para o design de interiores de hotéis, notadamente no Burj Khalifa em Dubai.
Por 65 anos, Giorgio Armani dedicou-se a entender e moldar o desejo do cliente, acumulando uma fortuna estimada em US$ 13 bilhões. Sua filosofia, resumida por ele mesmo, explica sua eterna busca pela perfeição: “Eu nunca estou satisfeito”. Ele morre não apenas como um criador de roupas, mas como um arquiteto da maneira como o mundo moderno se veste.
