Entre o Ícone e o Espetáculo: Paris Hilton e a Ilusão da Autobiografia

Após assistir a Infinite Icon: Uma Memória Visual filme que aborda a nova fase da carreira musical de Paris Hilton, culminando no seu espetáculo, junto a uma retrospectiva de sua fama juvenil, segredos, traumas e sua passagem para o mundo da música. Criando assim, uma contextualização do seu primeiro álbum e anos depois, com a estreia do seu segundo álbum que leva o mesmo nome deste documentário.

Devo ressaltar que a figura de Paris Hilton para mim, se limitava as fotos de tabloides e os escândalos nas suas farras de menina abastada, sua figura que serviu de inspiração para a criação de personagens na série Gossip Girl – que por acaso, esse documentário tem uma estética bem de fofoca, “XOXO, Gossip Girl” –, e o filme de Sofia Coppola Bling Ring: A Gangue de Hollywood. Então, esse documentário tem uma excelente abordagem em toda a história da cantora, focando não só pro público fã de Hilton, como também introduz a quem a desconhece. Em resumo, o que o documentário propõe é descontruir a figura fútil que Paris Hilton vendeu durante seu auge nos anos 2000.

Contudo, apesar de abordar temas interessantes como infância traumática, situações extremas e as farras como forma de silenciar todo sofrimento da artista, ele não deixa de ser desinteressante em muitos momentos.

Dividido em cinco capítulos e cada um deles tentando se fazer importante, cada um deles abordando desafios da cantora. A questão aqui é evidente no ritmo do documentário, quando a todo momento é perceptível um desequilíbrio entre abordagem e o show de Infinite Icon. Não estou brincando quando o primeiro capítulo tem um tema principal que leva quinze minutos para ser introduzido, desenvolvido e resolvido, e depois, vem uma sequencia de vinte minutos, junto a imagens que parecem ter sido tiradas de arquivos em png do google ou adesivos do próprio canva. É brega, insuportável, enrolado, é a tentativa de ressuscitar a estética anos 2000. Por vezes, existe quebras de narrativa para colocar reações de colegas ou supostos conflitos nos bastidores do show que sinceramente? Não parecem transmitir uma urgência grande ou desafio a figura de Paris, elas até podem soar engraçadas como no caso de seu trailer ter explodido do nada.

Às vezes, o filme tenta emular, por meio de filtros, outras estéticas, como a do Super-8 ou do 16 mm, mas o resultado é muito feio. Não existe propósito para as imagens, nem a tentativa de emular alguma memória. E as montagens musicais que acontecem, são intermináveis, enjoativas, dignas de serem feitos por imagens generativas como labubus aparecendo ou brainrots – me arrependi de ter escrito isso. Tudo isso serve pra criar essa sensação de um filme pessoal, como um diário sarcástico da personagem. Então, se prepare, porque vai ter glitter, muito brilho, performances bizarras, repetição de imagens enjoativas e uso de auto-tune.

Sabe, de alguma forma eu sei que esse documentário é um produto de algo grande que deu certo e está tentando criar esse mesmo filme evento exclusivo – ou não – para os fãs de Paris Hilton. É uma narrativa criada para ser o ápice do artístico, semelhante à Eras Tour de Taylor Swift, ou à Renaissance de Beyoncé. Prova disso é a necessidade de apostar na nostalgia pessoal e humana, em vez da fama.

Ainda que esta crítica seja negativa e acredito que extremamente inesperada, me ocorreu durante a sessão o quão a cultura do espetáculo é uma doença que parece nunca curar e sempre evoluindo seus sintomas. Paris Hilton foi vítima de um sistema de vitrine, dos flashes que a desumanizavam, a tornavam um objeto, era lentes de homens, ou, pessoas que se aproveitavam de suas derrotas. Hoje, o espetáculo do entretenimento migrou por outros tipos de mídia, especialmente aquelas que se tratam de crimes reais para alimentar um grande conglomerado de subprodutos afim de enriquecer por meio dessas tragedias. E é claro, o fator de estarmos em um era onde a informação é instantânea, muda completamente o cenário e a propagação de reações.

O filme é distribuído pela Sato Company e estreia dia 29 de janeiro nos cinemas.

Assista ao trailer

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