Em declarações recentes, Wim Wenders, cineasta alemão, disse no Festival de Berlim de 2026 que a arte, no geral, deve se manter afastada de questões políticas. Exatamente isso que você leu. O mesmo cineasta que representou uma geração no pós-conflitos da Segunda Guerra Mundial e na reformulação do cinema alemão, ironicamente, em sua mais pura ignorância, dá uma fala dessas. É muito interessante comentar sobre isso, já que o filme abordado hoje, por mais que seja uma obra pessoal do diretor — sobre sua infância e o desenvolvimento do seu sonho de se tornar artista —, é uma obra que dialoga com o contexto político dos anos 80. E, é claro, existe uma certa familiaridade com o governo Trump: já estamos falando de períodos extremamente bipolares, de grandes extremos. Mesmo com o fim da Guerra Fria, poucas mudanças realmente aconteceram no mundo.
Antes de ver Armageddon Time, o filme parecia ser um grande oscar bait e, de fato, ele é. Há toda a questão da infância junto com a fantasia solta, ao mesmo tempo em que o contexto político funciona como pano de fundo e até como uma resposta à repressão do sistema que o protagonista sofre e testemunha — tanto a racial, vivida por seu amigo Johnny, quanto o antissemitismo presente nas histórias do avô de Paul (Michael Banks Repeta).
É até estranho ver um filme de James Gray assim, dado que, em seus outros longas, nunca houve uma narrativa pensada para ser uma isca para a Academia. Em um contexto geral, Gray é um conhecedor dos romances clássicos da literatura — “Two Lovers” é, para mim, Noites Brancas, de Dostoiévski, ambientado nos anos 2000. Além disso, ele é herdeiro dos filmes de crime dos anos 70 e 80, com grande influência de Elia Kazan, Coppola e David Lean — “Os Donos da Noite”, por mais que seja um filme pipoca, ainda assim carrega uma forte identidade autoral. O que estou dizendo é que Gray é um romancista, um cineasta, um verdadeiro artista: ele não apenas filma, mas também, por meio de sua direção, compartilha seu repertório cultural com o mundo.
O que consigo perceber em Armageddon Time é que existe um certo conforto na escolha da história e até mesmo em sua direção. O que antes era refinado, disfarçado em meia sintonia com as narrativas, aqui parece ter uma folga, tornando-se simples, em certos momentos da trama, aquilo que Gray quer dizer com determinada cena.
Posso dar o exemplo das brigas, em que a câmera, segurada na mão, se apropria da instabilidade junto aos cômodos que, por mais que sejam um ambiente de conforto para o protagonista, nessas situações se tornam claustrofóbicos, repressivos e arrasadores. Além disso, atos de vandalismo são observados através de frestas, aberturas ou buracos — frame by frame. Por fim, há a fala do pai com o menino, no trecho final, em que os dois são mergulhados nas sombras enquanto conversam sobre o sistema injusto em que vivem, fazendo vista grossa, literalmente citando a palavra “sobreviver” nesse diálogo.
A injustiça é um traço que o protagonista desconhecia; na verdade, ela era disfarçada pela repressão que sofria na escola e pelas punições severas. Para ele, ainda criança, qualquer um que fizesse uma piada na sala de aula ou em casa, independentemente da etnia, estava apenas recebendo uma punição por conta das farras. Mas, no contato próximo com o avô, ele aprende que o mundo pode ser cruel com qualquer pessoa. Ao contrário de seu amigo Johnny, um menino negro que, evidentemente, já não tem uma imaginação tão fértil quando comparado ao protagonista e que, inclusive, já conhece o quanto a sociedade pode ser cruel com pessoas como ele.
Paul começa a entender isso quando muda de escola, onde passa a perceber o quanto o sistema de ensino pode ser engessado e minimalista, refletido até mesmo na arquitetura branca do espaço. Essa rigidez também se faz presente nos discursos políticos e no posicionamento de certos alunos de extrema-direita — ou melhor, no contexto dos Estados Unidos, republicanos.
No quesito atuação, o elenco infantil do longa manda bem, mas o destaque vai para os pais de Paul, interpretados por Jeremy Strong — conhecido pela série Succession — e Anne Hathaway, em um papel que eu diria ser o melhor de sua carreira. Quando os dois aparecem na trama, trazem um equilíbrio para a história, reforçando como, nessas narrativas, a figura do adulto é fundamental para guiar o personagem principal infantil.
O problema que encontro em Armageddon Time é justamente o seu final. Não sei, mas não parece haver um ápice ou uma conclusão clara de todo o ensinamento que Paul recebeu nessas duas horas de filme. Talvez o que o diretor queira dizer com esse desfecho abrupto seja que os dilemas políticos, junto a toda a injustiça do sistema norte-americano, constituem uma batalha que o menino tentará enfrentar no futuro — dadas as breves cenas dos espaços que, de certa forma, o reprimiam, somadas ao design de som que emula o barulho de um vagão de trem. Ou seja, ele estaria se afastando daquilo para se tornar inteiramente rebelde, porque só assim teria a chance de exercer, por meio de sua arte, sua manifestação e frustração contra o sistema. Ainda assim, por meio dessa poesia audiovisual, o final não me satisfaz.
Esse desfecho poderia não se concentrar apenas nos dilemas sociais, mas também na própria narrativa da criança, amarrando-a à sua fantasia — talvez de forma mais direta, oferecendo um momento claro de amadurecimento, marcando o fim da infância e o início da vida adulta. Outro filme que também fala sobre memória e infância — e que chega a ser mais épico que este —, é Os Fabelmans. As duas obras retratam a infância de seus diretores, Gray e Spielberg, mas Spielberg constrói uma narrativa épica, quase como um mito de criação de um grande artista. Sentimos esse poder, essa profundidade e essa paixão. Por mais que eu aprecie os dilemas abordados, sinto que Gray perde o foco em seu filme e acaba não encerrando, não desenvolvendo plenamente nenhuma de suas discussões. E, pior, não consegue amarrar todos os temas que propõe.
