Inserida na Mostra Lúcia Camargo, eixo curatorial do Festival de Curitiba, a peça Dois papa conta a história do Papa Bento XVI que busca renunciar seu cargo e do Papa Francisco que pode assumir a posição. Cada um deles representa uma posição da igreja, o Papa Bento representa a tradição e rigor, já o papa Francisco representa a mudança e adaptação.
A peça apresenta um cenário minimalista mas quando o projetor é ligado simples blocos brancos vão de uma pacata igreja nas periferias até a grande Catedral do Vaticano. Ela não só deixa o ambiente visualmente bonito, mas também mostra o que os personagens estão sentindo naquele momento. Essa escolha também ajuda a não perder muito tempo demonstrando e montando o cenário. Ao longo das cenas o projetor também transmite imagens reais do papas, textos da igreja e pequenos trechos de notícias.
Baseada no texto de Anthony McCarten, que também deu origem ao filme The Two Popes, a peça Dois Papas se sustenta principalmente no diálogo. A peça é marcada pelo confronto de ideias dos dois papa conversas extensas, que, embora por vezes expositivas, ganham fluidez com o uso do humor e da humanização dos personagens. Isso é uma grande diferença do filme em que é mais tenso já a dramaturgia apresenta um texto mais leve. Por exemplo em dado momento os dois dançam valsa juntos aproximando os do público.
No embate o figurino não é só estético, ele se torna um elemento ativo da dramaturgia A distinção entre Papa Bento XVI e Papa Francisco não se constrói apenas no discurso, mas também na materialidade das roupas: enquanto Bento XVI aparece associado a uma composição mais rígida e sofisticada evidenciada, por exemplo, pelos sapatos vermelhos, Francisco surge com uma estética mais simples e funcional. Mesmo quando compartilham o branco papal, são os detalhes que evidenciam visões opostas de Igreja, transformando o figurino em extensão visual do conflito entre tradição e renovação.

As irmãs representam o presente da igreja uma visão mais do cotidiano Além disso, ajudam a quebrar o peso dos diálogos com momentos mais leves e humanos, aproximando o público da história e mostrando que a Igreja também é feita dessas pequenas ações cotidianas.
A peça acaba humanizando muito a figura do papa em que em meios as discussões eles têm dúvidas, fazem piadas, erram. A peça não os eleva na figura de todo poderoso como no filme. Em meio às discussões, ambos se escutam mesmo discordando um do outro. Os momentos de humor também contribuíram para a peça não ficar muito cansativa mesmo longa.
Em um contexto marcado por forte polarização, Dois Papas surge como uma obra especialmente pertinente ao evidenciar que divergências não precisam resultar em ruptura. Ao acompanhar o encontro entre Papa Bento XVI e Papa Francisco, a peça sugere que o diálogo, mesmo entre visões profundamente opostas, ainda é possível. a montagem transforma o conflito em possibilidade de convivência.
Foto de capa Annelize Tozetto

