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O ano é 1958.
Na exibição pública anual do Laboratório Nacional de Brookhaven (EUA), entre os diferentes experimentos apresentados, havia um criado com um propósito simples: entreter. Utilizando um programa rudimentar de cálculo de trajetórias de vento, o físico William Higinbotham desenvolveu em apenas três semanas aquele que muitos consideram um dos primeiros expoentes dos videogames: Tennis for Two.
Com uma tela de osciloscópio e dois controles de alumínio, a atração fez enorme sucesso ao longo dos três dias de feira, principalmente entre estudantes do Ensino Médio e universitários. O que parecia apenas uma curiosidade momentânea viria a pavimentar o caminho para o surgimento da maior indústria de entretenimento da História: os videogames, reconhecidos hoje como a Oitava Arte.
Desde meados da década de 1970, com o surgimento dos primeiros fliperamas e consoles caseiros, os videogames evoluíram imensamente, atravessando nove gerações de consoles em quase 50 anos. Do lançamento de clássicos como Pong (1972), Space Invaders (1978), Pac-Man (1980) e Donkey Kong (1981), passando pelo “Crash de 1983”, o ressurgimento com o NES e Super Mario Bros. (1985), a rivalidade entre Nintendo e Sega nos anos 1990, a entrada da Sony com o PlayStation, a chegada da Microsoft com o Xbox no início do século XXI, a popularização da internet e dos jogos online, até os lançamentos modernos que se aproximam cada vez mais da realidade graças ao avanço tecnológico.
Não foram apenas os jogos que evoluíram, mas também seus jogadores. Os videogames tornaram-se um dos hobbies mais populares do mundo. Segundo a Pesquisa Game Brasil (PGB), realizada desde 2013, em 2025 cerca de 82,8% dos brasileiros afirmaram jogar algum tipo de jogo eletrônico, um crescimento de 8,9% em relação ao ano anterior.
A indústria também se consolidou como a maior do entretenimento. Desde meados da década de 2010, o faturamento global dos games supera, com larga vantagem, o do cinema e da música. Em 2024, o setor movimentou cerca de US$ 184 bilhões, enquanto o cinema e a música registraram, respectivamente, US$ 33,9 bilhões e US$ 28,6 bilhões.
Muitas vezes, quem não acompanha o universo dos jogos ignora seus aspectos artísticos. Assim como no cinema, a produção de um videogame envolve o trabalho coletivo de profissionais de diversas áreas: roteiristas responsáveis por narrativas e personagens; atores e dubladores que dão vida a essas criações; artistas gráficos que definem a identidade visual; animadores, compositores, sonoplastas e muitos outros. Um jogo AAA, termo usado para designar produções de grande orçamento, leva atualmente, em média, pelo menos cinco anos entre pré-produção e lançamento, tamanho o escopo dos projetos.
O Brasil, além de ser um grande consumidor de jogos, também se tornou um polo emergente no desenvolvimento. De acordo com a Abragames, o país é o maior mercado da América Latina e o décimo maior do mundo, movimentando cerca de R$ 13 bilhões anualmente, com faturamento de R$ 1,2 bilhão. Entre 2014 e 2023, o número de estúdios nacionais saltou de 200 para mais de 1.000, um crescimento superior a 400%.
Em entrevista ao Diário do Comércio, Rodrigo Terra, presidente da Abragames, destacou o potencial brasileiro:
“Temos uma cultura riquíssima, ainda pouco explorada no desenvolvimento de jogos, que pode dar origem a novas histórias, novos gêneros e formas de narrativa únicas, com uma identidade diferente daquela que tem dominado os videogames nos últimos 40 anos. […] Temos uma base crescente de talentos que, embora talvez ainda não esteja se expandindo na velocidade ideal, já demonstra força e potencial”.
