Sabe aquela sensação de assistir a um trailer instigante, criar expectativas e, ao conferir o longa, sentir que — apesar de bom — ele não era exatamente o que foi prometido? É essa a experiência com (Des)controle, novo filme das diretoras Rosane Svartman e Carol Minêm. Embora seja uma produção competente e válida para as telonas, o drama denso sobre alcoolismo sugerido pelo marketing revela-se, na prática, uma narrativa bem mais “água com açúcar”.
Na trama, Kátia (Carolina Dieckmann) é uma bem-sucedida escritora de livros infantis com um histórico de alcoolismo no passado. Quando um bloqueio criativo trava seu novo projeto e as tensões familiares aumentam, ela recorre novamente à bebida como válvula de escape.
O ponto alto da produção é, sem dúvida, a entrega de Carolina Dieckmann. A atriz constrói uma personagem tridimensional, equilibrando anseios, medos e uma nítida degradação psicológica. A forma como o vício corrói seus relacionamentos rende passagens genuinamente emocionantes.
A performance de Dieckmann é tão potente que chega a elevar o roteiro. Por mais que a obra adote uma abordagem sensível — inspirada em relatos reais de quem luta contra a dependência —, a sensação é de que o texto tangencia o tema de forma superficial. Falta o “soco no estômago” que a premissa sugere.
Outro elemento conflituoso é a oscilação de tom. O filme possui diversas passagens cômicas que funcionam e arrancam risadas orgânicas. No entanto, o contraste com a carga dramática “pesada” vendida no trailer gera uma inconsistência incômoda.
Não que o humor seja um problema; quando bem aplicado, ele é uma das ferramentas mais eficazes para potencializar o drama. Obras como O Show de Truman e Click desarmam o público pelo riso para, então, entregar o impacto emocional. Em (Des)controle, porém, a comédia nem sempre “orna” com a gravidade do tema. Fica a dúvida: o projeto nasceu como uma comédia nacional convencional que ganhou camadas dramáticas depois, ou foi um drama suavizado para se tornar mais palatável ao grande público? Considerando o apelo comercial de Dieckmann, o fator mercadológico parece falar alto.
No restante técnica, o elenco de apoio é correto e demonstra boa química, embora ninguém brilhe tanto quanto a protagonista. Fotografia e design de produção cumprem bem seus papéis, entregando um visual polido. Já o ato final decepciona, encerrando a jornada com uma resolução digna de “Sessão da Tarde” — um tanto apressada e excessivamente açucarada.
Em suma, (Des)controle é uma produção nacional digna, carregada nas costas pelo talento de sua estrela. Apesar da superficialidade do roteiro, ainda consegue discutir alcoolismo e feminilidade com a sensibilidade necessária para emocionar o espectador médio.
