Casagrande estreia monólogo no Festival de Curitiba e reflete: “Nem toda guerra vale a pena”

Walter Casagrande Jr. sobe ao palco do Festival de Curitiba com o espetáculo Na Marca do Pênalti, um monólogo autobiográfico que atravessa futebol, dependência química, perdas pessoais e reconstrução. A estreia acontece nos dias 3 e 4 de abril, às 20h30, no Teatro Guaíra, dentro da programação da Mostra Lúcia Camargo.

Se a trajetória de Casagrande já rendeu livros e documentário, agora ganha uma nova dimensão: a presença ao vivo. O ex-jogador e comentarista já publicou três obras — todas em parceria com o jornalista Gilvan Ribeiro. Em “Casagrande e seus Demônios”, revisita da infância ao auge no futebol, passando pelo mergulho no vício. “Sócrates e Casagrande – Uma história de amor” aborda a intensa relação com o ídolo corintiano. Já “Travessia” retrata o processo de tratamento e o difícil retorno à vida social.

No palco, essas histórias se encontram — mas sem roteiro fixo.

Com dramaturgia assinada por André Acioli, Fernando Philbert e o próprio Casagrande, e direção de Philbert, a montagem é dividida em dois tempos de 45 minutos, numa referência direta ao futebol. Ainda assim, o espetáculo não segue texto decorado.

“O meu forte é a espontaneidade. Eu não preciso de roteiro. A minha vida está na minha cabeça”, afirma Casão, como é conhecido. “O que eu vivi, o que eu fiz, o que eu deixei de fazer, as loucuras, o fundo do poço, as glórias.”

Segundo ele, o título também nasceu dessa lógica. “Quantas vezes na vida você esteve na marca do pênalti? Todos os dias tomamos decisões. Algumas mudam tudo. Outras, nem tanto. Não tem a ver com futebol. Tem a ver com a vida.”

Casão fala sobre o rei Dadá durante a peça. | Foto Ronaldo Gutierrez

Do campo à tribuna — e ao palco

Ídolo corintiano e figura central da Democracia Corinthiana nos anos 1980, movimento que dialogou com as Diretas Já e a redemocratização do país, Casagrande construiu uma carreira marcada por posicionamentos firmes. Depois de pendurar as chuteiras, tornou-se um dos comentaristas esportivos mais combativos da televisão brasileira.

Hoje, diz ter amadurecido a forma de escolher seus embates.

“Eu continuo com a mesma rebeldia, mas aprendi que nem toda guerra vale a pena. Não vou entrar em qualquer discussão.”

A peça nasceu de um convite do diretor Fernando Philbert, após Casagrande assistir a um espetáculo em São Paulo. A primeira apresentação aconteceu no Teatro do Corinthians, em formato de ensaio aberto, com forte carga emocional. Agora, o desafio ganha proporção maior no Guairão.

“Eu estreei no Corinthians fazendo quatro gols com 18 anos. Confio na verdade, na energia, na troca com o público”, diz.

Cultura como parte da recuperação

Casagrande revela que o teatro e o cinema tiveram papel fundamental em seu processo de recuperação. Durante o tratamento contra a dependência química, passou a frequentar eventos culturais como parte da estratégia terapêutica.

“A droga dá um prazer falso. Eu precisei substituir por prazeres reais. No começo eu ia obrigado. Depois, comecei a sentir prazer de verdade.”

Essa vivência moldou a relação dele com o palco. Em “Na Marca do Pênalti”, o público acompanha relatos sobre a infância, a relação com os pais, o impacto devastador da morte da irmã — apontada como ponto de ruptura emocional —, a autodestruição, o acidente que o levou à internação involuntária e o caminho de reconstrução.

“O fundo do poço veio dessa dor”, afirma, ao lembrar a perda da irmã aos 14 anos. “Eu engoli o sofrimento e aquilo virou raiva contra mim mesmo.”

Ele também comenta o debate atual sobre políticas públicas para dependentes químicos em situação de rua. Defende que o Estado tenha políticas de recuperação, mas pondera sobre os limites da internação compulsória, diferenciando-a da internação involuntária — modalidade que, segundo ele, foi decisiva para que estivesse vivo hoje.

“É um processo difícil, delicado, que precisa de cuidado e humanidade.”

O auge fora das quatro linhas

Ao refletir sobre os extremos da própria trajetória, Casagrande aponta a morte da irmã como o momento mais baixo de sua vida. Já o ponto mais alto não veio dentro de campo.

Foi na final da Copa do Mundo de 2018, na Rússia. “Foi o primeiro grande evento que eu fiz sóbrio, tranquilo, viajando sozinho. Quando a França deu a volta olímpica, eu pensei: hoje eu ganhei meu título mundial.”

Hoje, afirma ter fé — ainda que não siga uma religião institucional. “Tenho muita fé em Cristo. Converso com ele antes de dormir. Peço equilíbrio emocional.”

Uma história que vira coletiva

Sem texto fixo, cada apresentação é única. “Eu começo contando a minha história, mas depois vira a nossa história”, diz.

A expectativa para o Teatro Guaíra é alta. “É o primeiro grande palco. Mas acredito na química. Quase toda família conhece alguém que passou pelo que eu passei. Todo mundo já esteve na marca do pênalti.”

Foto Ronaldo Gutierrez

Serviço

Na Marca do Pênalti

Local: Teatro Guaíra – Curitiba

Data: 3 e 4 de abril

Horário: 20h30

Ingressos: disponíveis na bilheteria e online

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