O cinema underground perdeu espaço com a consolidação do modelo hollywoodiano de produção, que padronizou narrativas, formatos e modos de distribuição. Ainda assim, o termo “filme underground” ganhou força na década de 1950, quando a maior disponibilidade de película 16 milímetros de boa qualidade e de equipamentos mais acessíveis permitiu que um número crescente de não profissionais ingressasse na produção cinematográfica.
O gênero reúne obras realizadas fora da indústria comercial, quase sempre como expressão artística pessoal de seu criador. Nesse contexto, o cineasta frequentemente acumula funções, como: produtor, diretor, roteirista, fotógrafo e editor e recorre a materiais de baixo custo para viabilizar o projeto. A duração das produções também desafia padrões convencionais: pode variar de apenas 14 segundos, como em A Miracle (1954), de Robert Breer, a oito horas, como em Empire (1964), de Andy Warhol.
Na década de 1970, muitos realizadores ligados ao underground, vários deles com formação em pintura ou escultura, reforçaram a ênfase na composição visual e na intensidade emocional. Em vez de priorizar a estrutura dramática tradicional, esses cineastas apostaram na experimentação estética e na ruptura com as narrativas lineares.
Mesmo fora do circuito comercial, sua relevância histórica permanece evidente. Para conhecer algumas obras representativas desse movimento, veja abaixo as indicações selecionadas.
Alice (1988) de Jan Švankmajer

Uma jovem e quieta garota inglesa chamada Alice se vê em uma versão alternativa de sua própria realidade após perseguir um coelho branco. Ela passa a ser cercada por objetos inanimados que ganham vida e animais empalhados, e precisa encontrar uma maneira de escapar desse pesadelo — por mais distorcida ou estranha que essa saída possa ser. Uma versão cinematográfica memoravelmente bizarra do romance “Alice’s Adventures in Wonderland”, de Lewis Carroll.
Disponível no Youtube.
A Fidai Film de Kamal Aljafari
No verão de 1982, o exército israelense invadiu Beirute. Durante esse período, o Centro de Pesquisa Palestina foi saqueado e todo o seu arquivo foi levado. O acervo continha documentos históricos da Palestina, incluindo uma coleção de imagens fixas e em movimento. Partindo desse acontecimento, A Fidai Film busca criar uma contra-narrativa para essa perda, apresentando uma forma de sabotagem cinematográfica que procura recuperar e restaurar as memórias saqueadas da história palestina. É uma exploração comovente de identidade, memória e resistência, narrada por meio de uma combinação singular de documentário e técnicas experimentais.
Disponível no MUBI.
Solmatalua de Rodrigo Ribeiro Andrade

Em uma odisseia afro-diaspórica onírica, paisagens e vielas se encontram nas encruzilhadas do tempo. Com uma constelação de vozes e presenças negras, o curta realiza uma jornada vertiginosa entre territórios ancestrais e contemporâneos. Nessa travessia mística, som e imagem celebram a poesia negra que ancora memórias e descobre futuros.
Disponível no MUBI.
Un Chien Andalou de Luis Buñel

Uma experiência surrealista de Luis Buñuel e Salvador Dalí, que busca explorar, por meio de cenas chocantes, o inconsciente humano.
Disponível no Telecine.
