Por Gabi Coutinho
Entrei no Teatro Guaíra com a sensação de dia de clássico. Não exatamente aquele frio na barriga de decisão, mas um burburinho diferente.
Nas filas, dava pra reconhecer camisas de colecionador, comentários sussurrados, memórias compartilhadas antes mesmo do apito inicial. Era como se parte da torcida do Corinthians tivesse atravessado as catracas do estádio e decidido ocupar as poltronas vermelhas.
Sentei. Esperei o ritual. O apagar das luzes é sempre meu apito inicial para o teatro se tornar jogo.
Mas as luzes não apagaram.
Fiquei ali, meio fora de posição, como zagueira que levanta a mão pedindo impedimento e percebe que a bandeirinha não vai subir. O tempo corria, o espetáculo começava, e a plateia seguia iluminada. Aquilo me tirou do campo imaginário e me manteve na arquibancada: consciente demais, exposta demais, real demais.
O monólogo de Walter Casagrande entrou em jogo com passes longos de memória. Infância à fama, das dores à dependência, da queda ao retorno. Uma trajetória cheia de dribles difíceis e bolas divididas.
Era impossível não reconhecer a emoção ali, e admito que fiquei atenta ao lance. Algumas histórias vinham com força, como cruzamentos bem feitos que pedem cabeceio. Outras chegavam como passes curtos, reflexivos, quase conselhos. A platéia reagia como torcida que reconhece o ídolo: murmúrios, risos, identificação – e aplausos fora de hora.

Eu mesma recebi alguns desses passes. Tentei dominar, mas deixei a bola cair.
Foi uma conversa honesta, sim, mas sem a construção dramática e o preparo cênico que espero quando entro num teatro. Era como assistir a uma homenagem em campo de microfone aberto, ou ainda uma palestra motivacional – emocionante, mas ainda dentro da lógica do estádio.
Pensei que aquilo funcionaria muito bem em outras arenas. Num documentário, num evento de superação, num tributo no gramado. Agora ali, dentro da programação do Festival de Curitiba, ocupando pauta no Teatro mais “disputado”, senti que a bola não encaixava completamente no esquema tático.
Não dá pra negar: foi bonito ver o Teatro Guaíra ocupado por uma torcida diferente, com outras narrativas entrando em campo. Foi válido perceber que a arte e a cultura podem ampliar seus sistemas, testar formações, mudar a escalação.
E isso tem valor. Tudo isso fortalece o jogo.
Mas saí com a sensação de ter visto uma bola bem chutada, com força, com intenção, porém sem “gol Rita Lee*” fora do telão.
Não entrou. E no meu placar pessoal, Na Marca do Pênalti acabou assim: bola na trave.
*O “Gol Rita Lee” é uma referência histórica no futebol brasileiro, quando Casagrande batizou seu gol na final do Campeonato Paulista de 1982, pelo Corinthians, em homenagem à cantora. O lance foi uma dedicatória à “Rainha do Rock”, torcedora corintiana, que assistia à vitória por 3×1 contra o São Paulo no estádio.
Foto de capa Annelize Tozetto

