**Reportagem de capa da edição 010 de Julho 2025. Para acessar a versão digital interativa, torne-se membro do Folhetim Club aqui**
“Sob o olho dele”, diziam todos os personagens da distopia especulativa O Conto da Aia de Margaret Atwood. Mas afinal de contas quem é esse ele? Olho de quem? Quando a série da Hulu e estrelada por Elisabeth Moss fez sucesso no mundo inteiro, o que mais chocou foi o universo criado pela autora no final do século XX. Mas, como a própria Offred diz, ninguém percebeu quando eles chegaram ao topo.
Hoje, eles estão em todos os lugares. Em cada esquina, na sua vizinhança ou até mesmo nos ônibus. Muitos deles, caracterizados de forma a serem identificados de longe. Uma roupa social e um livro debaixo do braço. Poderia ser um Gabriel Garcia Marques, mas trata-se da bíblia. O livro mais controverso de todo o mundo e o mais famoso ao mesmo tempo.
Estamos falando deles, os cristãos. Seja católico ou protestante, é impossível não dizer que nos últimos anos um tsunami da religião atingiu o mundo, transformando progressos em questionamentos conservadores (e em alguns casos ultraconservadores, como em O Conto da Aia).
De acordo com o Censo 2022 do IBGE, os Católicos ainda ocupam 56,7% dos brasileiros, mesmo em queda. Os evangélicos seguem na cola com 26,9% da população. Em terceiro lugar seguem os espíritas com 1,8% e religiosos de matrizes africanas como Umbanda e Candomblé registraram 1%.
Mas como uma religião da Roma Antiga se propagou pelo mundo e dominou as nações? Se o Brasil é um país indigena, em que momento Jesus desembarcou nas caravelas portuguesas e como consegue se manter no trono das religiões latino-americanas?
O império da Fé
A Igreja como conhecemos hoje não começou assim. O que chamamos de ritos tradicionais são até recentes se comparados com a história da religião como um todo (sem contar o protestantismo). O Cristianismo começa no século I, como uma pequena seita judaica liderada pelos Apóstolos de Jesus de Nazaré. Os famosos Pedro, João, Lucas, Mateus e mais alguns eram pessoas bem longe da nobreza da época. Pobres, ladrões, saqueadores e até prostitutas, no caso de Maria Madalena (segundo os Evangelhos).
Contudo, tudo mudou no século IV, quando o imperador romano Constantino se converte ao cristianismo e promulga o Édito de Milão em 313 d.C. Anos depois, o imperador Teodósio I decreta a religião como a oficial do Império Romano, e é a partir dai, em 380 d.C., que o Catolicismo nasce.
Quando o Império Romano desaba sob os pés dos religiosos, a Igreja Católica assume o vácuo de poder deixado para trás e o bispo de Roma (que conhecemos como Papa hoje em dia), passa a ser a figura de autoridade dominante na região. O papado acumula poder religioso e político, além da capacidade de influenciar reis, impérios e guerras. Durante esse período, a Igreja se torna a instituição mais rica do mundo e a mais poderosa da Europa inteira, dominando territórios, impostos, exércitos e consciências.
Neste período que a história chama de Idade das Trevas, a Igreja muda o rumo do que seu fundador prega e começa a criar uma série de doutrinas que associam prazer e desejos do corpo como um pecado digno de inferno. No início da Idade Média, banhos públicos eram comuns e herdados dos romanos. Mas com o tempo, a Igreja passou a associar nudez, água e prazer à luxúria. Monges e padres condenavam os banhos como atos sensuais e pagãos. Problema? Séculos de tabu em torno da higiene pessoal.
A liturgia católica foi oficializada em latim, uma língua que a maior parte da população não compreendia, assim como Jesus que falava Aramaico. A prática reforçava a autoridade exclusiva dos clérigos sobre os textos sagrados e a salvação. Só a partir do século XX, com o Concílio Vaticano II (1962-65), as missas passaram a poder ser celebradas nos idiomas locais.
Foi nessa época também que os cultos a relíquias (ossos, roupas, objetos “sagrados”) e a devoção a centenas de santos se iniciou. Isso reforçava o poder da Igreja sobre a narrativa da fé e também gerava renda por meio de peregrinações e indulgências.
Enquanto tudo isso acontecia, a Bíblia era editada nos calabouços de Roma. Resgates de papiros antigos e histórias orais (como essas que nossos avós contam) foram sendo recortados para moldar o Cânon da Bíblia que conhecemos hoje. É o resultado de conciliações e disputas teológicas entre os séculos III e V. Diversos evangelhos, cartas e livros foram excluídos do cânon por não servirem aos objetivos doutrinários da Igreja. Os chamados “Evangelhos Apócrifos”, como o de Maria Madalena ou o de Tomé, ficaram de fora. Isso porque a Igreja proibiu traduções da Bíblia para o vernáculo por séculos. Ler a Bíblia por conta própria era considerado heresia. Somente o clero tinha o direito de interpretá-la. A Inquisição perseguiu e puniu quem questionasse ou divulgasse interpretações não autorizadas. O caso mais famoso é o do reformador Jan Hus, queimado vivo em 1415 por pregar que a Bíblia deveria estar acessível ao povo.

O menor país do mundo, a maior influência da fé
O Vaticano não nasceu como nação, mas como consequência de séculos de disputas entre Igreja e Império. Desde o fim do Império Romano, os Papas passaram a exercer poder territorial sobre vastas regiões da Itália Central, conhecidas como Estados Pontifícios, que duraram por mais de mil anos, até 1870.
Neste ano, com a unificação da Itália, as tropas de Giuseppe Garibaldi invadiram Roma e anexaram o território dos Papas ao novo Reino da Itália. O Papa Pio IX se recusou a reconhecer a autoridade italiana e se autodeclarou “prisioneiro no Vaticano”, iniciando um impasse diplomático que duraria quase 60 anos.
A solução viria em 1929, com o Tratado de Latrão, firmado entre o Papa Pio XI e o ditador Benito Mussolini. Pelo acordo, o Vaticano foi reconhecido como Estado soberano, com autonomia política, financeira e jurídica, e o Papa como seu chefe de Estado. Em troca, a Santa Sé reconhecia o Reino da Itália e encerrava a disputa.
Com a consolidação do Vaticano como Estado, também veio a necessidade de uma estrutura financeira autônoma. Em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, foi criado o Instituto para as Obras de Religião (IOR), popularmente conhecido como Banco do Vaticano. O objetivo oficial é o de administrar os fundos da Igreja e financiar atividades religiosas no mundo.
Na prática, o banco rapidamente se envolveu em esquemas obscuros, operações suspeitas e escândalos financeiros. Alguns dos episódios mais notórios incluem o caso Banco Ambrosiano na década de 1980, onde o então presidente, Roberto Calvi, apelidado de “o banqueiro de Deus”, foi encontrado enforcado sob uma ponte em Londres. Investigações revelaram lavagem de dinheiro, desvio de fundos da máfia italiana e do próprio Banco do Vaticano. Em 2012, cartas e documentos confidenciais revelaram corrupção interna, favorecimento político e gestão opaca das finanças da Santa Sé, o que expôs a fragilidade moral do Vaticano diante de um mundo cada vez mais digital e transparente. Até 2020, o banco estava envolvido em denúncias de especulação imobiliária com dinheiro de doações e desvio de recursos da caridade, inclusive para fundos de luxo em Londres. A reputação da Santa Sé sofreu abalos consideráveis.
A eleição de Papa Francisco em 2013, primeiro jesuíta e primeiro latino-americano da história a ocupar o trono de Pedro, representou uma guinada radical no discurso oficial da Igreja. Jorge Mario Bergoglio, nascido na Argentina, trouxe uma agenda de austeridade, combate à corrupção e crítica frontal ao clericalismo e à ostentação religiosa.
Francisco contratou auditores externos, exigiu prestação de contas públicas e afastou cardeais envolvidos em escândalos. Também estabeleceu regras contra lavagem de dinheiro e aumentou o controle sobre as finanças da Santa Sé. Também optou por morar na Casa Santa Marta (uma espécie de hotel dentro do Vaticano), em vez do luxuoso Palácio Apostólico. Insistiu em usar roupas simples, recusando anéis de ouro e tronos pomposos.
Tentou descentralizar o poder do Vaticano, fortalecer as Conferências Episcopais e abrir espaço para discussões sobre temas delicados (como acolhimento a pessoas LGBTQIA+, divórcio, pobreza e abuso sexual dentro da Igreja).
Mas sua gestão enfrentou forte oposição interna, especialmente de setores conservadores que o acusam de “relativizar a doutrina”.
Da ruptura teológica ao domínio político
O Protestantismo nasce oficialmente em 1517, quando o monge agostiniano Martinho Lutero publicou suas 95 Teses contra a venda de indulgências pela Igreja Católica, um sistema que prometia perdão dos pecados em troca de dinheiro.
Mas o protesto de Lutero era muito mais profundo: ele questionava a autoridade do Papa, a centralização do poder em Roma e exigia o retorno da fé cristã às Escrituras. Um dos seus lemas era “Sola Scriptura”, onde apenas a Bíblia deve guiar a fé, não as tradições da Igreja.
A Reforma Protestante não foi apenas um cisma religioso, mas também um movimento político, cultural e editorial. Graças à imprensa recém-inventada, os escritos de Lutero se espalharam por toda a Europa, inspirando novas correntes como Calvinismo (João Calvino, Suíça) com ênfase na predestinação e na moral rígida. Anglicanismo (Henrique VIII, Inglaterra) que propunha ruptura por razões políticas e o Luteranismo (Alemanha e Escandinávia) com influência nas escolas e liturgias públicas.
Assim, entre os séculos XVII e XIX, surgem os batistas, metodistas, congregacionistas e todos os istas possíveis. Nos EUA, por exemplo, no século XX, o pentecostalismo com ênfase nas emoções, nos dons do Espírito Santo e nos milagres se espalhou rapidamente de costa a costa. Também surge a linha neopentecostal, vendo as igrejas como empresas com cultos ao sucesso material e a manipulação de mídia.
O protestantismo chega ao Brasil ainda no século XIX, com missionários americanos trazendo igrejas históricas (presbiterianos, batistas, metodistas). Mas sua presença era tímida diante do domínio católico. A virada começa no início do século XX com a fundação da Assembleia de Deus, em 1911, por missionários suecos em Belém do Pará. O foco em curas, dons espirituais e linguagem simples conquistou rapidamente as camadas populares.
Já nas décadas de 1970-90, começa a ascensão do neopentecostalismo, com igrejas como a Universal do Reino de Deus em 1977, fundada por Edir Macedo. Essa nova geração trazia um marketing agressivo, programas de TV e rádios próprios e campanhas financeiras massivas (como o “desafio de fé”) e cultos performáticos e focados no sucesso material.
A ascensão meteórica dos evangélicos no Brasil tem explicações mais estruturais, emocionais e políticas. Diferente do latim e dos ritos tradicionais católicos, os evangélicos falam o português do povo e falam sobre vida real: emprego, saúde, vícios, família. A Universal, por exemplo, criou um verdadeiro império midiático, da TV Record à música gospel nas rádios, passando por novelas e filmes religiosos. A partir dos anos 2000, as lideranças religiosas evangélicas passaram a ocupar os cargos públicos no Congresso, criando a Bancada Evangélica, uma das mais poderosas no Brasil.
Jesus está no tiktok e nas Churches
Se antes o louvor era restrito a hinos tradicionais e corais, hoje a música gospel domina rádios, streamings e prêmios. Artistas como Aline Barros, Anderson Freire, Isadora Pompeo, Gabriela Rocha e Priscilla Alcântara deixaram os bancos da igreja e conquistaram o mercado mainstream. As letras continuam centradas na fé, mas agora com batidas pop, clipes produzidos e visual moderno, se fundindo ao R&B, trap, reggaeton, eletrônico e até funk leve. Plataformas como o Spotify e o TikTok permitiram que canções religiosas virassem virais entre jovens, mesmo fora do nicho cristão.
Nos grandes centros urbanos, novas igrejas evangélicas parecem mais uma mistura de coworking + show + TED Talk do que os templos tradicionais. A estética é minimalista, os logos são modernos e os slogans poderiam facilmente ser de uma startup (“Viva seu propósito”, “Liberdade é aqui”). Um exemplo desse novo formato é a Igreja Batista da Lagoinha, com sede em São Paulo. É um ambiente escuro com luzes de LED, show de música ao vivo, coffee break e linguagem jovem. Ou as Zion Church, Poema Church, Hillsong Brasil com estrutura de evento internacional, com mensagens curtas, storytelling e trilha sonora de festival. Ambas têm um elemento central como gatilho mental. A emoção como experiência de fé. O culto é pensado como uma vivência audiovisual com drops de sabedoria dignos de Reels, músicas que se conectam pela repetição emocional e líderes com carisma de celebridades.
Durante décadas, a internet foi demonizada por igrejas como um espaço de perdição, pecado, pornografia e heresia. Mas com o tempo, as lideranças religiosas entenderam o potencial da rede para evangelização em massa, formação de comunidade, monetização de conteúdo e construção de imagem e autoridade. Hoje, pastores e líderes são influencers com milhões de seguidores no Instagram e TikTok, criadores de conteúdo com vídeos diários de “devocional”, “palavra do dia”, “oração da madrugada” e streamers da fé, com cultos ao vivo, podcasts e lives que misturam conversa de bar com versículos bíblicos.
O novo cristianismo pop entende que curtidas, seguidores e engajamento também são métricas da missão evangelizadora. A máxima “ide por todo o mundo e pregai o evangelho” agora se cumpre com Reels, cortes para TikTok, e collabs com outros criadores.
Mas há contradições, como as Igrejas que antes contra “vaidade” e “mundo digital” agora investem em campanhas de tráfego pago e mídias de performance. Influenciadores gospel vivem entre o culto e o algoritmo, navegando entre doutrina e tendências para não perder relevância. Ou seja, o culto vira conteúdo e o conteúdo vira produto.
Deus acima de tudo… inclusive da Constituição?

Nos últimos 20 anos, a aliança entre igrejas, principalmente neopentecostais e católicas tradicionais, e movimentos de direita se intensificou em diversas democracias ocidentais. A religião deixou de ser apenas “opinião moral” para se tornar pauta política, estratégia eleitoral e motor ideológico.
Essa aliança se materializa em três grandes frentes como moralidade pública (família, sexualidade, aborto, costumes), anticomunismo e combate ao “globalismo” e o estabelecimento de uma “nação cristã”.
Desde a redemocratização, mas especialmente a partir dos anos 2000, líderes evangélicos passaram a ocupar com força o Congresso Nacional. A chamada “Bancada da Bíblia” hoje é uma das mais articuladas e influentes, formando uma tríade com o agronegócio (boi) e o armamentismo (bala).
Carregam como principais pautas:
- Restrição ao aborto e à educação sexual nas escolas
- Oposição a direitos LGBTQIA+ e pautas feministas
- Interferência na cultura (censura de exposições, filmes, livros)
- Incentivo a políticas públicas com fundo religioso (como ensino religioso confessional)
Durante governos como o de Jair Bolsonaro, o discurso religioso foi usado como baluarte contra “inimigos morais”, entre eles jornalistas, artistas, professores, universidades, e minorias sexuais ou raciais.
Nos Estados Unidos, esse fenômeno é ainda mais antigo e enraizado. O “Cristianismo evangélico branco” foi a base eleitoral de Donald Trump, que, ironicamente, não é exemplo de moral cristã, mas soube acenar para causas como o fim do direito ao aborto (o que aconteceu com a derrubada de Roe vs. Wade em 2022), a liberdade religiosa acima de direitos civis, escolas religiosas financiadas com verba pública e criminalização da linguagem de gênero.
Lideranças como Franklin Graham, televangelistas e canais como Fox News promovem uma verdadeira teologia nacionalista, onde a Bíblia serve como justificativa para controle social e supremacia moral.
Na França, partidos de extrema-direita como o Rassemblement National (de Marine Le Pen) usam símbolos cristãos em campanhas que defendem o “resgate da identidade francesa”, um eufemismo para anti-imigração e islamofobia.
Na Hungria, o premiê Viktor Orbán defende uma “democracia cristã” autoritária, que justifica o fechamento de fronteiras, a perseguição à imprensa e a repressão a movimentos feministas. Enquanto que na Itália, Giorgia Meloni (extrema-direita) mistura discurso religioso com nacionalismo conservador, defendendo que “Deus, Pátria e Família” devem ser os pilares da sociedade.
A distopia, O Conto da Aia, criada por Margaret Atwood em 1985, mencionada no começo da reportagem, se tornou ainda mais atual no século XXI. A história se passa em Gilead, um regime totalitário cristão que tomou os EUA após uma crise ambiental e queda da fertilidade. Entre os principais elementos da distopia, estão o Estado teocrático governado por homens religiosos, mulheres são divididas em castas e reduzidas à função reprodutiva, a Bíblia é usada seletivamente para justificar opressão e o discurso de “salvar os valores” vira método de controle. A frase “Bendito é o fruto” é uma ironia do uso bíblico para legitimar a escravidão feminina. Margaret Atwood declarou que nada em sua obra é invenção: todas as práticas opressivas descritas existiram em algum momento da história, muitas com apoio de igrejas (como já vimos até aqui).
O livro e sua adaptação para a série se tornaram um símbolo global de resistência ao avanço da teocracia disfarçada de democracia.
Em nome de Deus
A religião, em seu ideal, deveria ser um espaço de acolhimento, ética e luz. Mas a história recente tem mostrado que por trás de púlpitos dourados e discursos de salvação, se escondem abusos, silêncios cúmplices e estruturas de impunidade. Dos escândalos de pedofilia na Igreja Católica aos casos de charlatanismo e enriquecimento ilícito no meio evangélico, a fé institucionalizada tem enfrentado uma crise de legitimidade, e as feridas não param de sangrar.
A crise de abusos sexuais cometidos por padres é um dos maiores escândalos institucionais da história moderna. Milhares de vítimas, acobertamentos sistemáticos e uma cultura de silêncio marcaram décadas de omissão e dor.
Principais marcos:
EUA (anos 2000):
Reportagens do jornal The Boston Globe revelaram que a Arquidiocese de Boston encobriu centenas de casos de abuso, transferindo padres acusados em vez de puni-los. A investigação inspirou o filme “Spotlight” (vencedor do Oscar), e desencadeou uma onda global de denúncias.
Irlanda, Alemanha, Chile e França:
Investigações independentes em vários países expuseram redes de proteção dentro da própria hierarquia da Igreja, envolvendo cardeais, bispos e até documentos do Vaticano que orientavam o acobertamento.
Brasil:
Apesar do silêncio midiático, o Brasil também registra casos graves. Em 2023, o jornalista Chico Felitti revelou no podcast “O Ateliê” que o influente padre Cícero Romão Batista, considerado santo popular no Nordeste, foi investigado por abusos sexuais no século XIX, claramente um exemplo de como o problema é histórico e global.
Uma investigação da Igreja Francesa revelou que mais de 330 mil crianças foram abusadas por membros da Igreja entre 1950 e 2020. O Papa Francisco implementou medidas inéditas, como a obrigatoriedade de denúncias em casos de abuso e a responsabilização de bispos que acobertam crimes. Mas ainda há resistência interna e um abismo entre discurso e prática.
No Brasil, o crescimento meteórico das igrejas evangélicas (especialmente as neopentecostais) também trouxe consigo uma onda de escândalos envolvendo líderes religiosos. Os casos vão desde enriquecimento ilícito até manipulação psicológica e abuso de poder.
Edir Macedo (Igreja Universal):
Fundador da maior igreja neopentecostal do Brasil, Macedo foi investigado por lavagem de dinheiro, estelionato e envio ilegal de remessas ao exterior. Em 2010, o Ministério Público denunciou que ele e outros líderes da Universal desviaram bilhões de reais doados por fiéis.
Valdemiro Santiago (Igreja Mundial):
Conhecido por vender “sementes milagrosas” por até mil reais e produtos ungidos, Santiago foi alvo de reportagens que revelaram acúmulo de dívidas, sonegação e uso pessoal de recursos da igreja.
Silas Malafaia (ADVEC):
Além de figura política ativa, Malafaia já esteve envolvido em investigações sobre enriquecimento e declarações polêmicas, e foi citado na Operação Lava Jato.
Mas não são apenas crimes econômicos. Diversos líderes evangélicos foram denunciados por abusos sexuais disfarçados de rituais espirituais, sobretudo contra mulheres e adolescentes. Muitos usavam sua autoridade religiosa para manipular e silenciar as vítimas. Outra controvérsia são vídeos de pastores vendendo “vassouras ungidas”, “rosas do milagre”, “carnês de bênçãos” se tornaram virais na internet. Em 2020, um pastor de Goiás foi preso por vender um “kit COVID com óleo ungido”, alegando proteção divina contra o vírus.
Deus vai fazer live no domingo
O cristianismo já foi a base da formação do Ocidente, o centro da cultura europeia, a bússola moral do mundo moderno. Mas hoje, diante de um planeta hiperconectado, urbano, plural, e politicamente polarizado, a religião que moldou impérios agora precisa se reinventar para sobreviver, expandir e permanecer relevante.
Especialistas indicam que o cristianismo não está em colapso, mas sim em mutação global. Em países como Alemanha, França, Espanha, Bélgica e Reino Unido, o cristianismo, especialmente o católico, passa por um processo acelerado de secularização.
Na Alemanha, mais de 500 mil pessoas abandonaram formalmente a Igreja Católica só em 2023. Já na França, apenas 26% da população se declara praticante.
Igrejas são vendidas, transformadas em cafés, museus, centros culturais ou apartamentos. Jovens europeus são, em maioria, não religiosos, segundo o Pew Research Center.
A explicação passa desde perda de credibilidade após escândalos, desalinhamento com temas contemporâneos (direitos civis, diversidade) até um modelo litúrgico visto como antiquado e distante.
Enquanto a Europa seculariza, o cristianismo cresce com força na África, América Latina e Ásia, o que especialistas chamam de “a descolonização do cristianismo”.
Na África Subsaariana, o número de cristãos deve chegar a 1,1 bilhão até 2050. Filipinas e Coreia do Sul já são polos cristãos vibrantes na Ásia.
Enquanto isso, na América Latina, embora o catolicismo esteja em queda, os evangélicos crescem exponencialmente, especialmente em áreas periféricas. Esse cristianismo do Sul Global tem características próprias:
- Teologias emocionalmente intensas
- Pastores locais com grande carisma e influência
- Adaptação a linguagens populares e digitais
- Fusão entre fé, política e identidade nacional
A música gospel também é uma das principais pontes da fé com as massas. Em 2024, artistas gospel figuraram entre os mais ouvidos do Brasil no Spotify. E o fenômeno se repete em países como Nigéria, África do Sul e Indonésia. Assim como a crescente onda do Tiktok.
Mas junto com o avanço, cresce também a batalha simbólica entre vertentes tradicionais e progressistas, entre cristãos de direita e de esquerda, entre fé institucional e espiritualidade personalizada.
Tendências que se intensificam:
- Cristãos progressistas defendendo causas sociais, ambientais, antirracistas e pró-LGBTQIA+.
- Movimentos desigrejados, que vivem a fé fora dos templos e rejeitam instituições religiosas.
- Religiões DIY (faça você mesmo) — espiritualidades personalizadas, muitas vezes misturadas ao cristianismo.
- Crescimento da teologia decolonial e feminista dentro de universidades, igrejas periféricas e movimentos sociais.
Em paralelo, o avanço do cristianismo reacionário, alinhado a pautas ultra conservadoras e nacionalistas. A fé vira campo de disputa ideológica, onde cada lado clama para si a verdade divina.
A fé cristã atravessou o Império Romano, a Idade Média, a Reforma Protestante, os Estados Modernos. Agora, ela tenta atravessar a era da conexão, da pós-verdade, da hipermídia e do cansaço digital.
O cristianismo do futuro será, ao mesmo tempo, meme e milagre, post e pregação, ícone e invisível.
