Aprender sem medo: o teatro como espaço de encontro

Por Thalyta Cavalli

O que leva uma pessoa a querer aprender algo novo?

É a necessidade de alcançar um objetivo? O desejo por algo mais? A curiosidade por algo diferente? Ou simplesmente a vontade de se divertir?

Tenho certeza de que, assim como eu, você já passou (ou está passando) por uma dessas situações.

Há algum tempo, eu já estudava teatro quando, de repente, me vi como veterana diante de novos alunos. Observando seus olhos e ouvidos atentos, e relembrando todo o processo que havia vivido até ali, pensei: “preciso dizer alguma coisa”.

Então compartilhei uma frase que aprendi com um antigo professor: “O teatro é uma brincadeira séria.” Em seguida, continuei com algo como: “brinquem, joguem, realizem, mas nunca se esqueçam do outro, nunca se esqueçam de si e nunca se esqueçam do coletivo”.

O teatro é, sim, uma brincadeira. Mas uma brincadeira que exige presença, responsabilidade e entrega.

Tudo o que fazemos dentro de uma sala de ensaio pede rigor: atenção, estado de jogo, escuta, disponibilidade, corpo preparado. Até aí, tudo bem. Esse é o jogo. Essas são as regras.

Mas o que está em pauta além do rigor técnico?

Digamos que dentro dessa sala de ensaio havia dez pessoas. Dez seres humanos. Dez histórias diferentes. Gente que começou ontem. Gente que conhece cada etapa da construção de um personagem. Gente que estava bem. Gente que carregava um peso enorme.

O teatro é, antes de tudo, encontro. Não existe cena sem relação. Não existe personagem sem escuta. Não existe processo sem alteridade, e ela diz: “eu sem o outro não sou eu”.

Sou uma grande entusiasta do ensino porque é através dele que perspectivas são ampliadas e novos mundos são criados.

Em várias aulas e oficinas, vi pessoas florescerem porque se sentiram autorizadas a errar, a brincar. Aprendi uma pequena lista de atitudes que nos acolhem, como na palhaçaria, que nos diz que “ser ridículo é ser digno do riso” – não daquele que esnoba, mas daquele que aquece o coração.

No improviso, aprendi que jogar com o outro é sempre dizer sim, independentemente do contexto (mesmo que seja fingir que estamos voando sob as árvores de uma floresta, dentro de uma sala no centro da cidade).

Mas nada disso acontece por acaso. Esses jogos só existem quando o ambiente é construído com responsabilidade.

É nítido que os espaços de aprendizado não são neutros: eles podem libertar ou ferir.

Já vi talentos se calarem por medo. Vi pessoas pedirem desculpa antes mesmo de tentar. Vi atores e atrizes incríveis se encolherem antes de entrar em cena. Percebi o quanto era possível afogar-se num mar de dúvidas e constrangimento em ambientes onde suas escolhas são tratadas como menores, como um incômodo no processo. Não só vi, mas como senti isso na pele.

Ensinar teatro não é domesticar corpos, não é silenciar vozes, não é produzir artistas pelo medo. É criar ambientes onde cada sujeito seja respeitado e onde o rigor seja diferente de rigidez.

Que este seja um manifesto por um ensino de teatro mais gentil: um ensino que leve o jogo a sério, sem perder o afeto. Que cobre disciplina, sem apagar as subjetividades. Que forme artistas, mas, antes disso, forme pessoas.

Foto de capa Pavel Danilyuk

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