A estreia de Amálgama ocorreu na quarta-feira (4), na Cinemateca de Curitiba, e muito do que se falava antes da sessão era que o longa podia ser um filho de Lynch e Persona. Após a sessão, de fato, as referências estão todas ali: desde o isolamento numa casa de praia, o conflito interno, o relacionamento de duas mulheres e até a caixa mágica – traço presente na história do cinema em O Cão Andaluz, de Buñuel, “Cidade dos Sonhos”, do já citado Lynch, e até a própria sala escura, que pode ser definida como essa grande caixa isolada que explora diversos mundos. É um filme sobre o cinema, sobre arte e como ela toca cada espectador, principalmente quando se tem um contato direto com o produto.
Em resumo, é sobre essa diretora de cinema chamada Helen (Brenda Sodré) que está em crise, dada a esquizofrenia, sua obsessão na criação de uma nova obra e os conflitos de relacionamento com a sua amada, Ângela (Natalie Fronczak). O filme começa com a personagem de Brenda enfrentando a reação de seu público, nervosa, apática e até distante do que ela produziu – não parece ter tesão no que faz. Na procura de um novo contar, ela viaja para uma casa isolada e, lá, enfrenta seus demônios internos a ponto de eles se manifestarem como assombrações. Nesses devaneios, ela encontra sua nova trama e cria seu novo filme, apresentando-o ao público, sendo aclamada, demonstrando confiança no trabalho e atingindo aquela que ama.
Helen que busca reconhecimento em vida e, para isso, submete-se a uma relação que testa diversas vezes seus limites, assim como os limites de sua parceira. Claro, não é uma personagem tão metódica a ponto de buscar um relacionamento para gerar arte; porém, no seu arco final, entende o poder das experiências reais, tornando-as em obra e alcançando seu reconhecimento.
Existe algo que me deixa intrigado em Amálgama, que é essa questão da arte falar de algo. Muitas vezes, em outras obras, ela é usada para a expressão do luto ou do desejo de se comunicar, mas sinto que aqui é usada para o mal. Seria possível isso? Fazer um filme do mal? Esse amor que se transforma em obsessão, em que as duas se submetem a situações para agradar uma à outra e acabam se machucando. Parece até que estão vivendo uma pela outra, e não naturalmente. E o que marca essa sensação são os olhos de Brenda: perturbados, sonolentos e ligados ao mesmo tempo, transmitindo esse limbo emocional.

Tanto que a fotografia emula esse limbo em determinadas cenas, como quando os cantos ficam totalmente desfocados, concentrando-se em um único ponto onde se encontram as atrizes. Sendo a forma literal de representar esse isolamento, de não estar sendo ouvido, estar distante de tudo. Também se manifesta em outras cenas, como quando a diretora se encontra sozinha na praia: sentada na areia, admirando o mar e incapaz de adentrar nele, permanecendo apenas à distância – e que belo travelling foi feito por ali. Essa cena tem sua potência elevada quando Helen, em determinado momento, tenta mergulhar na terra, arrancando a grama, escavando uma cova para si, evidenciando que o mar é um mundo distante para a diretora. E, é claro, a cena em que a artista responde por suas próprias imagens. Incapaz de se garantir com laços humanos, consegue se sobressair em narrativas nas quais detém o controle. Mas não é isso que é o cinema? O poder do realizador de controlar uma determinada realidade, esse faz de conta onde se pode depositar todos os sonhos, frustrações e maravilhas numa sala — ou melhor, numa caixa mágica.
O que realmente me frustrou em Amálgama é que existe um grande escapismo no filme ao adentrar o surrealismo, que, quando utilizado em muitos momentos, acaba perdendo sua inventividade e fascínio. O que estou tentando dizer é que senti falta de momentos mais lineares, de diálogos inteiros, de ações com começo, meio e fim. Às vezes, senti que as experiências surreais eram um desfecho para algo que não foi tão bem desenvolvido no roteiro.
Existe uma citação no documentário Uma Jornada Pessoal Pelo Cinema Americano, escrito e dirigido por Martin Scorsese, e uma das falas iniciais do programa é a seguinte: “Para contar uma história e implementar uma visão, o diretor tem que ser um técnico e até um ilusionista. Isso significa controlar e dominar os processos técnicos.”
Partindo direto desse ponto, sinto que o diretor do longa, Tiago Lipka, como um mágico, mostrou logo no primeiro ato do filme todas as suas cartas. Empolgado e excitado por sua história, fascinado pelo seu poder de influência sobre o público, isso acabou sendo prejudicial, pois revelou todos os truques, tendo de reciclá-los durante toda a rodagem. Ou melhor, será que não foi Tiago quem fez isso, e sim a personagem de Brenda, Helen?

O cinema tem dessas: fazer com que a gente questione a verdadeira autoria da obra, brincando com a barreira da metalinguagem. E que filme louco é esse, em que a personagem fictícia literalmente se apodera da obra da qual faz parte.
Mesmo com esse jogo de brincadeiras, ainda assim sinto que o filme mergulha em um vício do experimento. Por vezes acerta, como no rosto deformado da atriz Natalie e no posicionamento de câmera entre duas portas, causando uma sensação completamente desconfortável. No restante, senti um vazio, uma apatia na experiência como um todo. E, diferente da personagem principal, que alcança seu sucesso e louvor, senti-me mais preso a um looping que me dominou desde o início da projeção.
Por fim, existe uma cena peculiar que gerou muito questionamento. É uma cena simples, em que a atriz está sendo filmada, mas a verdadeira história/ação acontece por trás da câmera e, a partir daí, comecei a me perguntar sobre narrativas que fazem isso, em que as verdadeiras histórias não são vistas, dado que estão acontecendo nos bastidores do filme.
