A versão definitiva de “Kill Bill” mostra o lado mais pessoal de Tarantino

Ao invés de fazer o roteiro do seu décimo filme, Quentin Tarantino já está criando uma retrospectiva da sua carreira, fazendo exibições especiais de seus filmes, com cortes estendidos ou apenas, uma celebração de seu legado muito marcante para o cinema contemporâneo. “Kill Bill: The Whole Bloody Affair” é um dos casos de uma edição especial – oito minutos de extra e sem censura como descrito no marketing – que alcançou uma distribuição mundial, o que chega a ser um evento raro. Consistindo nos dois volumes, concentrados em um único filme, chegando à marca de quase cinco horas de duração, é com certeza um deleite para os fãs da obra e uma ótima introdução a esse universo estilizado de Quentin Tarantino.

A história é a mesma dos dois volumes, uma ex-assassina (Uma Thurman) acorda de um coma após seu antigo chefe e amante, Bill, atirar nela. Ela logo embarca em uma busca por vingança, caçando os membros do Esquadrão Assassino de Víboras Mortais antes de confrontar o próprio Bill.

Por mais que esta obra seja lembrada pela vingança e sanguinolência, algo que pode passar despercebido para muita gente é o tema de maternidade e paternidade. Sim, é exatamente isso que você leu. Como um filme de uma mulher que ressuscita dos mortos, tem sua vingança, porém, precisa passar por um inferno contra os antigos guerreiros, ninjas malucos, e até chega a ser enterrada viva, é na verdade, um filme sobre família? Pois é. E diria mais, aqui, eu considero a obra mais pessoal de Tarantino, onde ele se mostra vulnerável, revelando parte da sua infância e como a cultura pop foi responsável para ele viver em meio a um ambiente familiar incompleto.

Não sou nenhum psicanalista, inclusive, acho isso até perigoso – tentar achar uma razão para todos os hábitos e gostos –, mas são temas que se evidenciaram pra mim nessa versão. Está presente na formação do esquadrão, na história de O-Ren Ishii, na figura paterna de Bill – aparecendo numa cena rápida –, e é claro, a filha de Beatrix que é o motivo de toda jornada da personagem. Pensando bem, é quase como uma novela da Globo, onde arcos são ligados por membros da família, cada um em uma situação, mas todos ligados a uma única causa.

Inclusive, a homenagem na cultura pop não se restringe apenas aos filmes orientais de samurai, kung fu etc., mas também existe essa mescla que pode parecer um tanto heterogênea com o gênero do western. No entanto, é muito bom lembrar que, em muitos casos, o faroeste veio de obras orientais, como no caso de “Yojimbo”, de Akira Kurosawa, que ganhou uma versão de Sergio Leone chamada “Por um Punhado de Dólares”. Então, essa mistura que pode parecer estranha, na verdade, já foi feita antes e muito bem-sucedida.

Além disso, a fita é um daqueles casos em que o material poderia se abster de qualquer diálogo ou som. A narrativa é tão explícita nas imagens que é quase como um quadrinho de super-herói. Não que a cada frame tudo seja didático, mas existe ali, todas as informações necessárias para guiar o espectador com relação a trama. E é claro, não é por acaso a minha citação ao gênero de super-herói, dado que a Noiva, talvez seja o mais próximo de um personagem fantástico e equiparável aos bonecos de Marvel e Dc – fazendo uma breve citação em uma das teses que Bill propõe sobre Superman e Beatrix Kiddo.

Em vez de seguir a linha tradicional de herói, com uma escala épica a cada fim de capítulo, a obra faz o oposto. Cria expectativa para depois, subverte-las. Desde o início quando Beatrix visita a casa de uma família e repentinamente, começa uma luta em meio a uma sala de estar com brinquedos infantis espalhados no cômodo, mudando para o cenário da cozinha onde caixas de cerais voam. E até mesmo o contrário, quando no confronto final entre Beatrix e Bill, não existe um duelo digno de espadas ao nascer do sol, e sim, um golpe fatal, silencioso e discreto.

A desconstrução faz parte até na divisão da história dada pelo intervalo de quinze minutos, com a primeira parte proporcionando cenas de ação e a segunda com muito mais silêncio, diálogos aos montes e infinitas teses que podem soar gratuitas, repetitivas e até mesmo, a pior de todas, concluir que todos os personagens tem a mesma voz.

No fim, é isso que define a experiência desse grande épico: a traição de expectativas e uma paixão tão grande por esse universo que pode acabar soando repetitiva e maçante. Há cenas que, na minha opinião, são desnecessárias e que até mesmo poderiam ter tido uma mão extra para realocá-las ou repassar essas informações a outros personagens — uma vez que quase todos têm a mesma voz. Contudo, sei muito bem que o roteirista sabia do seu poder e das fichas que estava apostando nesse material de tom novelesco, e tirar qualquer tempero dessa fórmula poderia estar dando um tiro no pé do autor. E, com toda certeza, não é isso que queremos para esse menino.

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