Vencedor do Grande Prêmio do Júri (Urso de Prata) no Festival de Berlim em 2021, “A Mensageira” (Piedra Noche), do diretor argentino Iván Fund, é uma obra que desafia as expectativas tradicionais do cinema de gênero.
O filme flutua entre o drama do luto e o realismo fantástico, tratando a dor da perda não como um evento a ser superado, mas como uma dimensão habitável.
A trama foca em Greta e Bruno, um casal que lida com o desaparecimento do filho em uma pequena cidade litorânea. Enquanto eles se preparam para vender a casa de veraneio e seguir em frente, ou tentar, surge a figura de uma criatura marinha, um “monstro” que habita as águas locais.
O filme exige paciência. Se você espera um thriller de monstros com ritmo acelerado, pode se frustrar. A Mensageira é um filme de ritmo contemplativo. A “ação” acontece muito mais no olhar dos pais do que em grandes efeitos especiais — que, inclusive, são propositalmente minimalistas e quase lúdicos.
A grande sacada de Fund é sugerir que, para sobreviver a uma perda insuportável, às vezes precisamos mudar de gênero cinematográfico. O casal começa em um drama realista e termina habitando uma fantasia.
O filme propõe que a negação não é apenas um estágio do luto, mas um refúgio necessário. Aceitar o monstro é, de certa forma, manter viva a conexão com o que foi perdido.
As atuações são contidas e profundas, transmitindo cansaço emocional, ritmo Lento e deliberado, o filme é uma joia do cinema argentino contemporâneo para quem busca sensibilidade.
O filme é uma experiência sobre a visibilidade. O que escolhemos ver para não morrer de tristeza? No final, a “mensageira” (ou a criatura) é o espelho de um vazio que não pode ser preenchido por explicações lógicas.
