O que eu mais gosto de “Gênio Indomável” é como esse filme pode se tornar um conforto para momentos extremamente conturbados. Está tudo ali: personagens falhos, amizades masculinas leves, romances e até relações paternas indiretas, junto das influências que elas exercem. Também, para além da história, há os bastidores do filme, que teve o roteiro escrito por dois amigos que só tinham o sonho de ascender na indústria cinematográfica estadunidense.
Uma narrativa clássica de underdog, aquele que tem menos chances de vencer e que, surpreendentemente, alcança o impossível. Normalmente, esse impossível é a conquista de um artefato ou a transformação de seus princípios. Nada demais, aparentemente. Porém, logo na abertura, o filme já comunica ao espectador toda a trama por meio de uma montagem curiosa, aliada à composição dos objetos cênicos:
Um menino cercado de conhecimento e luzes amareladas, com as lâmpadas sempre em primeiro plano, simbolizando a clareza do pensamento humano. Em contraste com toda a genialidade de Will Hunting (Matt Damon), ele também carrega uma desorganização material, quase sucateada, e existencial. No conflito, ele é descoberto, mas se revela indomável devido aos tantos traumas que carrega, junto à sua solidão. Um menino sem rumo e disciplina.
E há o trabalho de Matt Damon ao mostrar mudanças sutis quando certas situações despertam gatilhos de uma infância traumática em seu personagem, que deixa de ser racional e provocativo para se tornar um agressor impulsivo. De certa forma, essa autossabotagem faz parte de sua filosofia.
Porém, quando é apresentado aos seus dois mestres — Sean Maguire (Robin Williams) e Gerald Lambeau (Stellan Skarsgård) —, Will enfrenta um dilema tão presente em sua vida: a lógica e a razão. Gerald é aquilo que Will pode se tornar: um professor renomado, que se veste bem e tem um corte de cabelo legal. Inclusive, até se assemelha a ele, estabelecendo um paralelo direto com uma figura paterna. Enquanto isso, Sean é aquilo de que Will zomba no início, talvez por ter levado uma vida comum, apesar de possuir uma genialidade equiparável, se não superior, à de Gerald.
As coisas avançam não graças à genialidade do garoto, mas a cada encontro que Will tem com o psicólogo Sean. Paralelamente, esses resultados são potencializados pela relação amorosa com Skylar (Minnie Driver), e não tanto pelos desafios matemáticos ou pelas entrevistas de emprego.
Algo que me surpreende é como esse filme é extremamente clássico em sua direção e montagem. Digo isso porque o realizador é o cineasta independente Gus Van Sant, responsável por obras um tanto experimentais que têm como objetivo causar sensações no público, em vez de seguir a tradicional narrativa em três atos. Ou seja, Van Sant é um cineasta curioso e que sempre tende a elaborar propostas diferentes para suas narrativas. No caso deste filme, vejo sua direção mais escanteada e refém do material escrito no roteiro. O que, sinceramente, não é um problema. Contudo, vejo que, nas mãos de outros cineastas, como Martin Brest, de “Perfume de Mulher”, Francis Ford Coppola e até Jon Turteltaub, de “A Lenda do Tesouro Perdido”, o resultado poderia ser o mesmo. Não sei, mas sinto que esses filmes e cineastas têm uma vibe que combina mais com a proposta de “Gênio Indomável”.
No fim das contas, o verdadeiro desafio do personagem não são os problemas acadêmicos, mas o desafio de se entregar a alguém que ama, se arriscar em um relacionamento e, principalmente, fazer essa escolha sem se deixar domar. Porque, afinal de contas, ele é indomável.
