“Não Existe Almoço Grátis”: um movimento social refletido em três mulheres

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O terceiro mandato de Lula como presidente do Brasil teve início em primeiro de janeiro de 2023. Estima-se que mais de 150 mil pessoas tenham acompanhado a posse em Brasília. Apoiadores vieram de todas as regiões do país e mais de 40 artistas se apresentaram. Mas em “Não Existe Almoço Grátis”, documentário de Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o foco está nas cozinheiras do evento. 

Elas são Jurailde, Bizza e Socorro, todas integrantes do Movimento Sem-Teto (MTST). Personagens que dão rosto ao projeto das Cozinhas Solidárias, criado em 2021. Como explica Jurailde em seu relato, o projeto surgiu durante a pandemia. Primeiramente, houve a entrega de alimentos aos sem-tetos. Porém, como muitos não tinham gás para cozinhar, o projeto evoluiu para a entrega de almoço gratuito. Desde lá, o projeto foi incorporado à Lei n°14.628/2023 e foi premiado pela Unicef. 

O documentário organiza sua estrutura nos três dias que antecedem aquele primeiro de janeiro. As câmeras nos levam até Sol Nascente, favela do Distrito Federal. Lá, conhecemos nossas protagonistas e seu plano de cozinhar no evento da posse. A missão é ambiciosa: serão preparadas milhares de marmitas para alimentar quem chegar no local. Vemos o processo de escolher onde será montada a cozinha, que acaba sendo em uma escola próxima ao Plano Piloto. Enquanto acompanhamos o desenrolar do projeto, aprendemos mais sobre as protagonistas.

De cara, percebemos uma das maiores virtudes do longa: a força das três personagens. A vida das três mulheres ilustra a realidade de milhões de brasileiras. Todas tiveram que abandonar a infância para trabalhar. É emocionante ouvir no relato de Bizza a culpa que ela sentia pela situação difícil que passava. Após ter contato com o MTST, entendeu que a falta de uma moradia não era falta de esforço. Ali também entenderam o impacto do racismo e da misoginia em suas vidas. Por fim, puderam unir forças para lutar por um objetivo em comum.

A emoção das histórias é acompanhada pelas personalidades vibrantes das protagonistas. É evidente, por exemplo, a empolgação de Jurailde ao falar de sua horta. Enquanto um dos momentos mais divertidos do filme vem de Socorro e sua história sobre um jantar de pizza. Fica evidente, também, a quantidade de trabalho necessário para realizar o projeto. Além das três mulheres, incontáveis integrantes do MTST ajudam na organização. 

Com a câmera sempre próxima às protagonistas, acompanhamos todo o trabalho na cozinha. Nos minutos finais, a estrutura do filme também é eficiente em criar momentos de tensão. Com uma edição inteligente, somos lembrados da divisão severa na política daquele momento. Em uma cena escutamos o áudio de um jornal da época sobre uma suspeita de bomba nas imediações do Palácio do Planalto. 

“Não Existe Almoço Grátis” pode soar, primeiramente, como um título irônico. Mas, durante seus 74 minutos de duração, vemos que não poderia ser mais literal. O alimento só chega na mesa de cada um após muito trabalho daqueles que o produz.

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