R. Mitchell, diretor de uma filmografia bastante curta e de grandes intervalos — doze anos e apenas três longas —, alcançou grande sucesso no terror com “It Follows” e, após isso, criou um suspense um tanto subestimado e polêmico com “O Mistério de Silver Lake”. Ame ou odeie este último — eu, particularmente, acho uma obra-prima —, Mitchell não engatou outro projeto logo em seguida, demorando oito anos para lançar sua nova obra de caráter estranho. Diferentemente de seus longas anteriores, hiperindependentes, extremamente autorais e até com aquele selinho da A24, aqui entramos em terrenos um tanto poderosos, com viés de star power e de grande estúdio comercial. E, talvez, o pior de tudo: uma trama envolvendo dinossauros!
Já não foi suficiente os últimos dez anos terem sido preenchidos pela franquia World e agora querem nos fazer engolir ainda mais disso? É de se assustar uma coisa dessas. Contudo, o que posso dizer é que, nesse gênero de sci-fi, só existia um único filme bom — “Jurassic Park”, o primeiro filme, para ser mais exato. Agora, com o lançamento de “O Fim da Rua”, posso afirmar que existem dois bons filmes de dinossauro.
Anos 80, férias de verão, o típico americano, período em que ocorrem os maiores lançamentos do cinema, além de piqueniques, passeios em família, divertimentos etc. Porém, em contraste com toda essa diversão, a família Platt enfrenta problemas. Brigas e desentendimentos entre o casal Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor) e seus filhos, Brian (Christian Convery) e Audrey (Maisy Stella), são testemunhas dessa relação que aparenta se definhar, prestes a resultar em um divórcio. Claro, eles não querem deixar isso aparente, até porque esse pequeno bairro chamado “Oak Street” tem muitos personagens que iriam fofocar sobre o relacionamento instável da família. Até que, um dia, luzes sobrenaturais começam a aparecer e, nisso, o bairro é transportado para o período jurássico.
Vamos recapitular: elemento familiar instável, dinossauros, bairro como personagem e fantasia no sobrenatural. Claramente, a referência ao cinema de Steven Spielberg vai além das figuras jurássicas. Estamos lidando com o declínio da família americana, apresentado em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” — o pai obsessivo com o fantástico e ignorante aos problemas ao seu redor — e consolidado em “E.T. O Extraterrestre”, filme sem a presença da figura paterna, com a mãe tendo que sustentar essa família, falhando gravemente diante de sua ausência e desespero.
Aqui, o que David R. Mitchell faz é se tornar um grande maneirista — algo que já havia feito em “O Mistério de Silver Lake” —, tornando-se um metamorfo do cinema ao tentar emular traços de Spielberg e Tobe Hooper em “Poltergeist: O Fenômeno”. É tudo muito inspirado, chupado e referenciado. Não só isso, como também a trilha sonora de Michael Giacchino é claramente algo que poderia ter sido feito por John Williams. Claro, não se trata apenas de imitação, mas também de uma forma de casar a trilha com toda a estética de um filme lançado nos anos 80. Inclusive, utilizando exageradamente o filtro “split diopter”, quase perdendo o propósito por conta do maneirismo estético. Não é horrível; e, sim, engraçado. Suponho que até a lente utilizada seja da época, talvez da série Panavision — lentes essas usadas por K. M. F. em “O Agente Secreto”. Só faltou mesmo o “dolly zoom” para os cinéfilos salivarem de raiva ou emoção.
Porém, algo que se diferencia bastante é a abordagem do suspense, especialmente em relação aos monstros pré-históricos. Spielberg poderia utilizar um ponto de vista, com a câmera entrando no olho dos animais — recurso utilizado para poupar gastos com animatrônicos e efeitos especiais. David prefere outra abordagem, trabalhando com a sombra, o reflexo indecifrável e até mesmo com os sons. Desde o início do filme, não há pudor em mostrar os bichos; é aquilo mesmo. Trabalhando, inclusive, com o grotesco desses animais.
Também, o principal ponto que diferencia “O Fim da Rua” de qualquer outra referência ao cinema dos anos 80 é o protagonismo feminino da personagem de Anne Hathaway. Não temos tanta atenção ao pai, nem às crianças, mas, sim, a Denise. Ela tem seus sonhos, seus objetivos, escolhe suas lutas e toma posicionamento, principalmente em relação à segurança da família. Em nenhum momento você vai ouvi-la dizer “O que faremos?”. Esse papel fica com o personagem de Ewan McGregor. Outro traço do diretor é o gosto por desconstruir certos mitos ou tropos do cinema anterior — tanto que, em “O Mistério de Silver Lake”, uma obra quase paródica de Hitchcock, temos como protagonista alguém que assume esse papel detetivesco, porém, é um completo loser.
O que me incomoda neste longa são os rostos de Anne e Ewan. Para mim, o star power deles é extremamente moderno, muito atual. Eles não entregam performances abaixo da média, de maneira nenhuma! Contudo, essa emulação de um filme antigo, dadas todas as características que mencionei até então, torna-os um pouco deslocados desse universo revitalizado. Eles não são Teri Garr, Richard Dreyfuss, Roy Scheider ou Karen Allen. Eles são o currículo hollywoodiano mais poderoso do século XXI. E, comparados com as crianças, principalmente com o piazinho (Christian Convery), parece que ele foi tirado daquela época; tem todo o jeito de Shawn Bishop, de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”.
“O Fim da Rua” é um filme com contradições interessantes, longe de serem ruins; na verdade, estão mais para excelentes. É uma obra que provavelmente passará despercebida — o público não se entusiasma com dinossauros há alguns anos. Contudo, é fácil que seja alvo de furos de roteiro ou até de piadas com a trama. Mas, em meio a tantas produções feitas atualmente, esta se destaca pelo simples fato de causar o principal efeito que qualquer entusiasta do cinema precisa: empatia.
