Este filme é um dos resultados mais ambiciosos para a comédia. Hollywood ainda mantinha traços de suas histórias mais clássicas, porém, de alguma forma, estava iniciando essa rebeldia dos autores, com a independência dos cineastas diante dos estúdios: escrito e dirigido por… Contudo, a “Nova Hollywood” só iria se concretizar alguns anos depois, e apostar em um Cassavetes, que, em 1959, estreava Shadows no Festival de Veneza, era arriscado demais. A aposta foi firmar com o jovem comediante, que recém havia se separado de sua dupla, Dean Martin, dando, assim, liberdade para suas histórias: dirigindo, escrevendo e atuando.
Na história de “O Terror das Mulheres”, Herbert (Jerry Lewis) se forma na faculdade com grandes louros, porém vê sua namorada ficando com outro rapaz, o que o faz jurar castidade e, ao mesmo tempo, desenvolver aversão ao sexo feminino, especificamente às mulheres jovens. Ele só ajudaria mulheres que tivessem traços parecidos com os de sua mãe, ou seja, velhas, mandonas e que cuidassem de Herbert como se ele fosse um filho.
Antes um retrato de um jovem chateado, hoje seria o estereótipo do jovem incel.
Herbert, após a conclusão dos estudos, descobre que seu diploma não irá lhe proporcionar muitas oportunidades — talvez o comentário mais cirúrgico do filme — e, de bolsos vazios, busca emprego em um pensionato administrado por duas velhinhas queridas. Contudo, assim como um presente de grego, todas as moradoras são jovens mulheres. Que enrascada!
Obviamente, o jovem Herbert cria um escândalo diante disso. Porém, após muitas conversas e promessas das proprietárias, ele decide conviver naquela grande casa. Apesar de tratar as jovens como se fossem leões, na verdade elas são apenas atenciosas, independentes e cada uma possui sua própria personalidade. São elas que mandam naquele espaço, e Herbert foi aceito não por ser um homem com “H” maiúsculo, mas por deter uma grande sensibilidade que ele próprio não percebe — ou, quem sabe, porque elas tiveram pena do coitado Herbert.
Com o passar da trama, a fita nos proporciona momentos tímidos de comédia, como encenações envolvendo tapas entre Herbert e uma das jovens mulheres. Em seu auge cômico — talvez o momento mais ambicioso do filme —, destaca-se a sequência em um grande set de gravações, que oferece até uma dimensão metalinguística ao caos de uma verdadeira produção audiovisual. Fico imaginando como foi a realização desse próprio filme.
Retomando o que disse lá atrás sobre ser um projeto ambicioso, Jerry Lewis aposta em uma trama com vários personagens em cena, assim como na construção de um pensionato de três andares, com diversos quartos — cada um deles transmitindo a personalidade de sua moradora —, dando a impressão de uma casa de bonecas em escala real. Porém, como os holofotes estão, em sua maior parte, voltados para a reação de Jerry diante de sua curiosidade pelo espaço, há uma certa limitação do humor.
Diferente de “Playtime – Tempo de Diversão”, outro filme de escala igualmente ambiciosa no que diz respeito à arquitetura do set, Jacques Tati trabalha com um efeito de bola de neve, no qual uma simples ação do personagem gera uma série de consequências imprevistas. Já no longa de Lewis, todo o humor à la “Looney Tunes” se concentra na presença de Herbert e se conclui nessa mesma figura. Mesmo com o potencial de um grande cenário, fruto da grande visão artística por trás desse épico da comédia, no fim há uma falta de inventividade, que recorre sempre aos mesmos desfechos ao final de cada episódio.
Por fora da comédia, o longa de Lewis traz comentários interessantes. Não diria que se trata de uma obra progressista apenas por apresentar personagens femininas versáteis e independentes — até porque já tínhamos Ray e seu grande western “Johnny Guitar”. Acho que o realizador até tentou construir um comentário feminista, mas, infelizmente, não é isso que sobressai na fita. No fim de O Terror das Mulheres, Herbert é aceito pelas jovens do pensionato. Na verdade, ele é adotado por elas. Para mim, a transformação do personagem acontece quando ele percebe que não precisa ter aversão às mulheres jovens, já que elas também podem exercer um papel materno. Exatamente isso que você leu. Em vez de amadurecer e superar seu medo, Herbert apenas substitui a ideia de uma mãe velha pela de uma mãe jovem. Na conclusão, elas ficam a serviço de Herbert, e Herbert fica a serviço delas.
Em retrospecto, a obra de Jerry Lewis engana o espectador na primeira assistida, mas, após repercutir na mente, revela um grande desvio e uma falta de oportunidades tanto na comédia quanto nos comentários ideológicos.
