Pais que erram, pais que tentam: a paternidade além da figura do provedor

A representação da paternidade na cultura pop mudou significativamente nas últimas décadas.

Se antes predominava a imagem do pai como provedor financeiro e autoridade familiar, hoje filmes, séries e outras produções culturais exploram diferentes experiências de paternidade, enfatizando aspectos como cuidado, afeto, fragilidade e reconciliação. A partir dessa perspectiva, é possível observar como Valor Sentimental e Um Lugar Qualquer ilustram essa transformação ao retratar homens que buscam lidar com seus erros e reconstruir vínculos afetivos marcados pelo distanciamento.

Em Valor Sentimental, Joachim Trier constrói uma delicada mistura familiar sobre afetos reprimidos, ressentimentos acumulados e a difícil busca pela reconciliação. A trama acompanha o reencontro das irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) com o pai, Gustav (Stellan Skarsgård), um cineasta cuja dedicação à carreira custou sua presença na vida das filhas. Nora, em especial, carrega as marcas desse abandono e rejeita o convite do pai para participar de seu novo projeto.

O conflito ganha novos contornos quando Gustav se aproxima da atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning). Mais do que uma parceria profissional, a relação entre os dois se transforma em uma oportunidade para que o diretor tente preencher lacunas emocionais deixadas por anos de ausência. Rachel funciona como um espelho de suas falhas e como uma ponte para reflexões que ele nunca conseguiu estabelecer com Nora. Dessa forma, Gustav encontra uma possibilidade tardia de cuidado, escuta e aproximação.

Nesse sentido, o filme Valor Sentimental dialoga com uma transformação recorrente na cultura pop contemporânea: o abandono da figura do “pai provedor” como único modelo de paternidade em favor de representações mais complexas, marcadas por erros, vulnerabilidades e tentativas de reparação.

Uma discussão semelhante aparece na trama de Um Lugar Qualquer (2010), de Sofia Coppola. O filme acompanha Johnny Marco, um ator de Hollywood conhecido por seu estilo de vida marcado pelo vazio e pelos excessos. Hospedado no icônico hotel Chateau Marmont enquanto se recupera de um acidente ocorrido durante as filmagens, ele passa os dias entre festas, encontros superficiais e passeios em sua Ferrari. Sua rotina, porém, é transformada pela presença de Cleo (Elle Fanning), sua filha de 11 anos. Inicialmente distante e despreparado para assumir responsabilidades paternas, Johnny gradualmente desenvolve uma relação mais próxima com a menina, experiência que o leva a questionar suas escolhas e a repensar o rumo de sua vida.

Em ambos os filmes, a paternidade não é definida pela capacidade de sustentar financeiramente uma família ou exercer autoridade sobre ela, mas pelo esforço de construir uma presença emocional significativa. Essa nova forma de exercer a função paterna desloca o foco da provisão material para a construção de vínculos afetivos, evidenciando que cuidado, escuta e atenção são elementos tão importantes quanto as responsabilidades tradicionalmente associadas ao papel de pai.

Assim, a cultura pop reflete uma mudança importante na forma como a paternidade é representada na cultura contemporânea. Em vez de figuras paternas idealizadas ou infalíveis, os filmes apresentam homens imperfeitos, marcados por ausências, arrependimentos e dificuldades emocionais. Mais do que celebrar a autoridade paterna, essas narrativas valorizam a capacidade de reconhecer erros, buscar reconciliação e construir relações afetivas mais genuínas. Nesse novo imaginário cultural, ser pai não significa apenas prover, mas estar presente, criar conexões e participar ativamente da vida dos filhos.

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