“Socorro!” acerta no terror e erra ao repetir uma crítica social desgastada

Após o desastre de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, longa produzido pela Marvel Studios, fundamental para a castração de Sam Raimi — diretor das trilogias “Evil Dead” e “Homem-Aranha” —, “Socorro!”, o mais novo filme do diretor, tenta recuperar um pouco de sua sanidade em um projeto de escala menor, focado no terror de sobrevivência, de argumento bem simples.

Rachel McAdams interpreta Linda, uma personagem fracassada. Ela é determinada, inteligente, gosta de fazer trilhas e viajar, contudo, é uma loser. Nenhuma dessas qualidades é suficiente para que tenha jogo de cintura ou saiba se comunicar com seus colegas de trabalho, o que a torna um alvo para aqueles que estão acima dela. Seus superiores não fazem questão de trabalhar, aproveitam-se da competência de Linda e ainda passam o dia inteiro falando sobre golfe. O sonho dela é ser reconhecida, acreditando que seu esforço em dobro compensará e lhe renderá oportunidades futuras.

Com a chegada de um novo CEO, Bradley (Dylan O’Brien), ela passa a alimentar a esperança da tão sonhada promoção. Sem criar suspense: não é isso que acontece. Decepcionada, Linda aceita o convite de Bradley — que parece um personagem saído de “Psicopata Americano”, devido aos seus tiques e manias, enfatizados pela baixa milimetragem da lente — para acompanhar a etapa final de uma negociação em outro país. Uma viagem de negócios. Como já foi dito, trata-se de um terror de sobrevivência, então é de se presumir que o avião cai e os dois personagens acabam ilhados.

Na saída de um ambiente corporativo hipermasculino para uma ilha deserta, os dilemas morais tornam-se evidentes: não existe mais hierarquia empresarial, chefes mandando em funcionários. Rei é quem melhor se adapta às condições; no caso deste filme, aquela que se adapta. Isso não é surpresa para o espectador, já que o longa utiliza recursos da mise-en-scène para contar toda uma história sobre os interesses e as experiências de Linda com aventuras radicais, de maneira semelhante ao exemplo clássico de “Janela Indiscreta”, de Hitchcock. Olha aí, o querido sendo citado em mais uma crítica.

A fita, nesse segmento inicial é bem-humorado e, com o avançar da trama, flerta com um quê de narrativas pulp — exageradas, frenéticas, escapistas, comerciais e voltadas ao terror. Rachel McAdams e Dylan O’Brien têm uma química cômica muito boa, o que não é surpresa, já que ambos possuem uma trajetória consolidada no cinema, especialmente Rachel. A grande surpresa é como o filme consegue deixar Rachel esquisita para esse papel. Ela, que já foi Regina George e a musa de romances melodramáticos, torna-se agora uma pessoa deslocada da sociedade. Porém, quando se encontra em um ambiente favorável, sua personagem recupera parte do encanto visto em outros trabalhos.

Na direção de Sam Raimi, é notável o conforto com que conduz essa história, sobretudo pela mistura de gêneros: do drama à comédia, da comédia ao terror, do terror psicológico ao slasher — com um cenário florestal digno de um acampamento à la Crystal Lake. Há ainda o uso de efeitos especiais, maquiagens exageradas e trash, marca registrada de seus “Evil Dead”. Também chama atenção o uso da shaky cam — ou “câmera de Raimi”, como gosto de apelidar —, quando o ponto de vista da câmera assume a perspectiva do espírito. Em “Socorro!”, ela passa a representar os olhos de um javali enfurecido. O que talvez falte ao filme seja um fator místico para essa ilha, elementos mais sobrenaturais para Raimi brincar dentro da trama. Contudo, isso faria o diretor entrar em um terreno bastante popular e, muito provavelmente, as comparações com a série “Lost” seriam inevitáveis. Seria dor de cabeça demais para o realizador, e sabemos muito bem que ele acabou de passar por uma baita enxaqueca com seu filme anterior.

No último ato de “Socorro!”, a narrativa amolece a personagem Linda, uma vez que revela que a ilha não era tão vazia assim. Em um twist, descobre-se que existe uma mansão supertecnológica do outro lado da ilha e que a personagem de McAdams sabia de tudo. Seus dotes de sobrevivência, por mais eficazes que tenham sido, acabam dependendo de uma conveniente ajuda do roteirista, o que enfraquece a história. No entanto, o grande problema está na inevitável comparação com outro filme, lançado em 2022 e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.

“Triângulo da Tristeza” acompanha um cruzeiro repleto dos mais variados tipos de bilionários e, em determinado momento, todos acabam ilhados. A partir daí, quem assume a posição de liderança é uma das funcionárias do navio, justamente por ser a única que entendia de sobrevivência. E adivinhe como esse filme termina? Da mesma forma que “Socorro!”. Há a exploração da ilha, a descoberta da mansão de um bilionário e, por fim, o dilema moral: sair da ilha e retornar à vida de antes ou permanecer ali.

O que não gosto nesses finais é que a crítica ao sistema capitalista é tão óbvia que chega a ser um saco. No fim, a conclusão dos ilhados é continuar formando uma hierarquia de status; nesse caso, uma hierarquia dos mais aptos. A ideia é mostrar que os seres humanos não são capazes de agir socialmente sem estabelecer relações de poder, sempre chegando à formação de superiores e inferiores. No fim das contas, esses ambientes corporativos e as hierarquias sociais não são tão diferentes de uma floresta: as pessoas tendem a passar por cima umas das outras, independentemente do contexto.

O conceito clássico do filósofo Thomas Hobbes — “o homem é o lobo do homem” ou algo assim… — é interessante, mas, aparentemente, os realizadores tendem a seguir o mesmo caminho, recorrendo às mesmas convenções de desfecho. Talvez essa seja a solução mais fácil para encerrar uma história o mais rápido possível. Afinal, o público já não parece ter a mesma paciência para assistir a um filme com mais de duas horas. Só falta agora os realizadores mastigarem as narrativas de vez para os espectadores.

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