Por Gabi Coutinho
Uma vez ouvi uma história de que toda criança nasce com um bolso invisível. Um bolso que guarda um universo inteiro ao invés de moedas, figurinhas ou pedrinhas brilhantes. Algumas colocam ali um dragão colorido incrivelmente assustador. Outras escondem um cachorro imaginário que late em francês. Há quem carregue um pedaço de nuvem para os dias de calor, ou ainda um sorriso que precisa ser escovado todos os dias.
Um bolso digno de colecionador. De sonhos, de histórias ou até mesmo de janelas, como a menina que conheci no teatro esses dias. É claro que ela não arrancava janelas das casas… mas ia andando pela vida e, quando encontrava alguém, abria uma janela para dentro daquela pessoa.
Na janela da senhora que andava devagar, descobriu que existiam histórias que precisavam de mais tempo para atravessar a rua. Na janela do menino que pensava diferente percebeu que cada um precisa ter seu próprio espaço. Na janela da menina cega, aprendeu que existem paisagens que chegam primeiro pela voz – e desde então, começou a prestar mais atenção nas palavras, admirando como algumas desenhavam montanhas melhores do que qualquer lápis. Na janela do garoto surdo, se surpreendeu em como as mãos também sabem conversar, sendo que às vezes parecem passarinhos, às vezes parecem vento, e às vezes parecem alguém dizendo “fica mais um pouco” sem emitir um único som.
Foi então que um adulto apareceu e perguntou:
— Mas afinal, o que faz dessas janelas diferentes?
A menina olhou confusa.
— Diferente de qual?
O adulto abriu a boca para responder, mas não encontrou resposta. Porque ali, com a criança, percebeu que diversidade não é uma exceção mas, também, uma coleção infinita de maneiras de existir.
Tem quem enxergue com os olhos e quem enxergue com descrições cuidadosas. Tem quem escute com os ouvidos e quem escute com os olhos atentos e as mãos em movimento. Tem quem fale muito e quem conte histórias inteiras apenas sentindo. E talvez o segredo esteja justamente aí: compreender que o mundo é grande demais para caber em um único jeito de ser.
Naquela tarde, a menina voltou para casa com o bolso invisível pesando mais do que nunca.
A mãe perguntou:
— O que você trouxe?
Ela respondeu:
— Atenção.
Naquela conversa com um adulto, em meio à sua jornada, também se deu conta de algo importante. Viu que mais do que dependente dos sentidos, a relação com o outro mora na presença e no cuidado.
Foi mais um passo que muitas crianças souberam antes de nós: que imaginar não é fugir da realidade, mas fazer espaço para que mais pessoas caibam dentro dela. Uma percepção que muitas vezes se perdem pelo caminho quando adultos estão preocupados demais em fechar suas janelas para evitar correntes de ar, enquanto uma criança dorme ali dentro só esperando o sol entrar.

Gabi Coutinho assistiu Da Janela no Teatro Bom Jesus no dia 14 de junho, em Curitiba. Foi encantador perceber como a peça falava sobre a “diversidade na diversidade” contando uma história simples, acessível aos mais diversos públicos e, acima de tudo, às infâncias. As crianças na plateia certamente foram tocadas, inclusive aquelas que adormecem dentro dos adultos.
Ficha técnica:
Idealização, direção artística e dramaturgia: Marco dos Anjos | Direção de produção: Bárbara Galvão e Felipe Valle | Assistente de direção: Rohan Baruck | Elenco: Luize Mendes Dias, Mariana Siciliano e Alain Catein | Comunicação em Libras: Thamires Ferreira | Coordenação artística: Felipe Valle | Coordenação de produção: Carolina Bellardi e Fernanda Pascoal (Pagu Produções Culturais) | Produtora assistente: Natália Dias | Trilha sonora e direção musical: Ananda K | Direção de movimento e preparação corporal: Ricardo Gadelha | Cenografia: Cachalote Mattos | Figurinos: Teresa Abreu | Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni | Adereços: Leandro Fazolla | Visagismo: Leo Thurler | Consultoria em acessibilidade: Vanessa Bruna | Consultoria em Libras: Christofer Allex | Modelista: Francisca Sabóia | Aderecista de figurinos: Nayara Pereira | Cenotécnico: Marco Antonio Rodrigues | Identidade visual e design Gráfico: Fabrício Sacramento | Programação visual: Nathalia Alves| Gestão de mídias sociais: Enzo Amarelo | Fotografia: Annelize Tozetto, Daniel Barboza e Renato Mangolin | Produção local: Maduh Cavalli | Gestão de projeto e prestação de contas: Felipe Valle e Mariana Sobreira (Fomenta Soluções Culturais) | Contabilidade: Máximos Contabilidade | Correalização: Fomenta Soluções Culturais | Coordenação de Projeto: Trupe Produções Artísticas | Realização: Trupe do Experimento.
Foto de capa Maduh Cavalli
