O que significa sambar como ato político? Uma resposta possível está em Candeia, o samba, o quilombo e o ativismo negro, novo livro do pesquisador norte-americano Stephen Bocskay. Lançada pela editora Malê, a obra mergulha na trajetória de Antônio Candeia Filho (1935–1978), um dos mais respeitados baluartes do samba carioca, e no legado do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, entidade fundada por ele em 1975 como reduto de oposição à comercialização do Carnaval e à erosão das raízes afro-brasileiras. Com prefácio de Muniz Sodré e orelha de Luiz Antônio Simas, a obra chega às livrarias com os primeiros eventos marcados para 6 de junho no Rio de Janeiro e 8 de junho em São Paulo
Quinze anos de pesquisa arquivística e de campo separam a ideia inicial da obra, um desdobramento de sua tese de doutorado pela Universidade de Brown, nos Estados Unidos, que só agora chega às livrarias. O resultado é uma constelação de fontes que atravessa música, filosofia, sociologia, história, ciências políticas e literatura, e que desvela, com precisão inédita, as múltiplas dimensões do ativismo negro no Brasil dos anos 1970.
“Em minha pesquisa de quase duas décadas incorporei documentos policiais antes sigilosos, do Brasil e dos Estados Unidos, jamais vistos pelo público, documentos preciosos de acervos pessoais de ativistas também inéditos, 24 entrevistas com artistas e ativistas negros, além de jornais e revistas da época que só consegui com permissão especial. Graças a essas fontes, foi possível mostrar as complexidades das visões sobre a negritude e os sentidos de luta política que existiam no Brasil conforme a classe social, a escolaridade e a formação cultural dos negros”, destaca o autor, sobre a abrangência e originalidade de fontes e argumentos que diferenciam a obra.
O samba como ato político
Em 1970, Candeia lançou “Dia de Graça”, logo tomado como um hino da negritude. A letra exigia que o negro deixasse de ser “rei apenas na folia”: o verso “cante um samba na universidade” era um chamado concreto numa época em que o Rio de Janeiro tinha mais de 650 mil brancos com curso superior contra cerca de 9 mil negros. Logo depois, viria a censura: o samba-calangueado “O Morro do Sossego” foi vetado pelo regime militar por “incentivar a luta de classes”.
No centro do livro está o GRANES Quilombo (Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo), muito mais do que uma escola de samba. Fundado por Candeia e outros sambistas de renome, como Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Martinho da Vila, o Quilombo nasceu de um rompimento: depois que a diretoria da Portela ignorou uma carta de Candeia com sugestões para preservar a tradição da escola, o grupo decidiu criar sua própria entidade.
Diferente das agremiações tradicionais, o Quilombo recusava financiamento da Riotur, tinha entrada franca, distribuía comida para os membros e funcionava como centro de pesquisas da arte negra, com palestras sobre a situação socioeconômica do negro, rodas de partido-alto, jongo e caxambu, e exibições de filmes. Intelectuais como as fundadoras Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez frequentavam a escola. Luiz Antônio Simas define o Quilombo, na orelha do livro, como um trabalho que “não comporta zonas de conforto”.
Em plena ditadura militar, quando o AI-5 havia desmontado os direitos civis e as transmissões televisivas do Carnaval passavam a ditar um novo modelo espetacular, que o sambista chamava de Escola-Show, Candeia reagiu: o partido-alto tornou-se ferramenta de reação e conscientização, defendendo a liberdade artística diante do comercialismo crescente.
Uma pesquisa de fôlego
Para reconstituir esse universo, Bocskay ouviu e reuniu uma polifonia de vozes, que raramente aparecem juntas numa mesma pesquisa. Martinho da Vila explicou o que Candeia queria dizer com “Não sou africano”; Dona Ivone Lara questionou a necessidade de “idolatrar a África” sem negar o continente; Dom Filó revelou que a rivalidade entre samba e soul era, em parte, uma estratégia de marketing; Selma Candeia, filha do compositor, compartilhou memórias íntimas do pai. Elton Medeiros avaliou que “o Quilombo foi um erro”, apontando as contradições internas que coexistiam. Também contribuíram Beth Carvalho, Noca da Portela, Fernando Pamplona, Leci Brandão, Zezé Motta, Marcos Valle e Sérgio Cabral, entre muitos outros.
O autor não escolheu caminhos fáceis. Ao contrário, seu livro complexifica e revisita as tensões entre os sambistas e o movimento Black Rio, que ganhava muita popularidade e influência na época; as acusações de “racismo negro” sofridas pelo Quilombo; a contradição interna no tratamento da mulher negra; e os paradoxos de um ativismo que nem sempre se identificava como tal. Como escreve Muniz Sodré, a obra traz “à luz discussões e episódios pouco conhecidos da vida paralela dos sambistas cariocas”. Luiz Antonio Simas sintetiza: “Bocskay evita as comodidades das linhas retas e assenta suas reflexões na encruzilhada”, lugar, por excelência, do samba.

Um pan-africanista cultural
Filho de um flautista de choro, fundador da Portela, aos 14, Candeia já compunha sambas-enredo, e levou a Portela ao título em 1953 e 1957. Nos anos 1960, participou do Zicartola, do CPC da UNE e do Teatro Opinião, e teve sua composição “Minhas Madrugadas” interpretada por Elizeth Cardoso no show “Rosa de Ouro”, em 1965.
O tiro que levou naquele mesmo ano, durante uma briga de trânsito, mudou tudo. Cadeirante e com a saúde fragilizada, Candeia mergulhou ainda mais fundo nas raízes do samba e na luta pela dignidade do povo negro. E fez disso matéria musical. Faleceu em novembro de 1978, aos 43 anos, de complicações renais decorrentes da paraplegia. Em 2025, completaria 90 anos.
O livro aponta para o caráter ao mesmo tempo preservacionista e inovador do sambista que, nos anos 70, já explorava um experimentalismo musical afro-diaspórico. Nos discos Raiz, de 1971, e Samba de Roda, de 1975, Candeia foi além, aproximando-se do Afrobeat e da soul music, dialogando com ritmos do Brasil, dos Estados Unidos, do Caribe e da África Ocidental, no que Bocskay chama de um “tropicalismo” pioneiro da música negra.
Segundo o autor, Candeia foi um autêntico pan-africanista cultural. Não no sentido de um programa político transnacional e o Quilombismo político de Abdias Nascimento, mas pela maneira como recriava e reconfigurava os estilos musicais da diáspora africana, sempre garantindo que outros gêneros se adaptassem ao samba, e não o contrário. Uma postura que o fez defender a identidade nacional sem abrir mão da inventividade.
A leitura de Candeia, o Samba, o Quilombo e o Ativismo Negro é essencial para compreender o samba como uma expressão cultural que vai além de um gênero musical: uma forma de organização social, um arquivo vivo da experiência negra e um campo de batalha pela dignidade e pela identidade de um povo.
No enterro de Candeia, em 1978, 500 pessoas, entre os mais ilustres nomes do samba, como Cartola e Clementina de Jesus, cantaram “Dia de Graça” ao redor de seu jazigo. Com o rigor de quem dedicou quinze anos a escutar e a pesquisar, Bocskay entrega um livro que mantém essa voz ecoando.
Sobre o autor:
STEPHEN BOCSKAY nasceu em Nova York em 1975. É teórico cultural, com pesquisas sobre música e cultura popular, pensamento político negro, movimentos sociais, mídia e autoritarismo no Brasil e nas Afro-Américas. Residente entre os Estados Unidos e o Brasil e dedicado pesquisador do samba há décadas, publicou diversos artigos científicos sobre a expressão política da negritude no gênero. Além deste livro, é autor de Brazilian Popular Music and Censorship: From Getúlio to Redemocratization (Cambridge University Press, no prelo). Doutor em Estudos Luso-Brasileiros pela Universidade Brown, com pós-doutoramento no Programa Avançado de Cultura Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PACC/UFRJ), lecionou em universidades nos Estados Unidos e no Brasil, incluindo Harvard, Cornell, Brown e a Universidade Federal de Pernambuco.

AGENDA DE LANÇAMENTOS:
Rio de Janeiro
06/06 (sábado), a partir das 14h — Sessão de autógrafos, com roda de samba, na Livraria Folha Seca (Centro) / Alfa Bar e Cultura (R. do Mercado, 34 – Centro)
São Paulo
08/06 (segunda-feira), 19h — Sessão de autógrafos, na Livraria Drummond (Avenida Paulista, 2073 – Conjunto Nacional)
FICHA TÉCNICA
Título: Candeia, o Samba, o Quilombo e o Ativismo Negro
Autor: Stephen Bocskay
Editora: Malê
Orelha: Luiz Antonio Simas
Prefácio: Muniz Sodré
Gênero: acadêmico
Número de páginas: 262
Projeto gráfico: 14×21
Ano: 2026
Data de lançamento: 02 de junho de 2026
Preço: R$ 78
Via Assessoria de Imprensa
