Rio como cenário: por que a cidade continua sendo protagonista no cinema e nas séries?

Em 1896, quando a primeira sessão de cinema do Brasil foi realizada no Rio de Janeiro, ninguém poderia prever que, 130 anos depois, aquela mesma cidade se tornaria um dos endereços mais disputados do planeta para se filmar uma história. Os números mais recentes indicam que o Rio vive um novo momento de protagonismo no audiovisual global e voltou à rota dos grandes lançamentos internacionais.

Dados divulgados pela Rio Film Commission e repercutidos por veículos especializados mostram que a cidade registrou 7.885 diárias de filmagem em 2023, superando Paris, com 7.400, e ficando atrás de Los Angeles e Madrid no ranking internacional. No recorte das produções estrangeiras, foram 26 produções internacionais com 258 diárias de filmagem no município. As áreas mais demandadas seguem concentradas na orla, com destaque para Copacabana, Ipanema, Leme e Grumari.

Um palco natural que dispensa estúdio

A pergunta que orienta esta apuração é simples na forma, mas complexa na resposta: o que faz o Rio de Janeiro continuar relevante como cenário, década após década?

A resposta começa pela geografia. A Rio Film Commission lista a diversidade de paisagens em curtas distâncias como um dos principais atrativos da cidade. Em um único dia de gravação, uma equipe pode registrar praias oceânicas, floresta urbana, montanhas com vista para a baía, arquitetura histórica e bairros suburbanos com forte identidade visual.

Praias oceânicas, como Copacabana, Ipanema, Barra e Grumari

Áreas de floresta urbana, como a Floresta da Tijuca e o Parque Lage

Montanhas e mirantes, como Pão de Açúcar e Corcovado

Arquitetura histórica no Centro, em Santa Teresa e na Lapa

Bairros suburbanos e áreas periféricas com composição visual própria

Essa diversidade topográfica reduz custos de produção. Em vez de deslocar equipe, elenco e equipamentos para regiões distintas, produtores encontram múltiplas ambiências dentro de um mesmo perímetro urbano.

Há ainda um fator menos mensurável, mas recorrente nos relatos do setor: a luz natural. A combinação entre latitude tropical, mar, relevo e amplitude do céu cria uma qualidade visual que favorece fotografia, contraste e profundidade de imagem, tornando a cidade especialmente atraente para cinema, publicidade e séries.

A cidade como personagem: do Cinema Novo ao streaming

A ideia de que o Rio de Janeiro não funciona apenas como pano de fundo, mas como personagem, atravessa a história do cinema brasileiro. Ela aparece com força no Cinema Novo, quando realizadores transformaram ruas, morros, praias e bairros em parte ativa da narrativa, articulando paisagem e conflito social.

Essa tradição permanece viva. O Rio segue sendo filmado não apenas por sua beleza, mas por sua capacidade de condensar contrastes urbanos, tensões sociais e identidades visuais muito distintas em poucos quilômetros. É esse repertório que faz a cidade funcionar tanto em narrativas históricas quanto em thrillers, dramas familiares, séries criminais e produções de apelo internacional.

Entre os exemplos recentes, estão a série Paranoia, anunciada como uma produção em português inteiramente ambientada no Rio, e Os donos do Jogo, série da Netflix ambientada no submundo do jogo na cidade. No cinema brasileiro, títulos como Ainda Estou Aqui reforçam o papel do Rio como espaço de reconstrução histórica e densidade dramática.

Produção descentralizada e economia criativa

Um dos sinais mais relevantes da fase atual é a descentralização das locações. Em 2024, Marechal Hermes apareceu como o terceiro bairro mais procurado para filmagens no Rio, atrás apenas do Centro e do Flamengo, ganhando o apelido de “Marechalwood”. O dado indica que o interesse do mercado audiovisual não está restrito ao cartão-postal da Zona Sul.

Produtores têm buscado bairros com casario preservado, ruas largas, menor interferência visual de prédios altos e logística mais viável para fechamento de ruas e circulação de equipes. Nesses contextos, moradores também passaram a integrar de forma mais direta a economia criativa local, alugando casas e oferecendo apoio às produções.

Esse movimento amplia a cadeia econômica do audiovisual e distribui melhor seus efeitos sobre o território. O Rio, assim, aparece menos como paisagem congelada e mais como infraestrutura viva de produção cultural.

Festival do Rio é o termômetro do setor

O aquecimento da atividade audiovisual também se reflete no circuito de festivais. Em 2025, o Festival do Rio voltou a operar como vitrine internacional do cinema produzido, exibido e negociado na cidade. A programação ampliada, a circulação de profissionais estrangeiros e a presença de nomes de projeção global reforçaram a percepção de que o Rio retomou centralidade no calendário audiovisual.

Ao mesmo tempo, o fortalecimento de produtoras, coproduções, plataformas de streaming e políticas de atração de filmagens, como o cash rebate municipal, ajuda a explicar por que a cidade deixou de ser apenas um cenário desejado e passou a se consolidar também como ambiente competitivo de negócios.Entre o clichê e a complexidade

Há, no entanto, uma tensão permanente na representação do Rio. Ao longo de décadas, o imaginário audiovisual sobre a cidade oscilou entre dois polos previsíveis: o cartão-postal idílico e a violência espetacularizada. Muitas produções estrangeiras recorreram a esse atalho visual, simplificando uma cidade muito mais contraditória e diversa.

Parte do interesse atual pelo Rio, porém, parece buscar maior complexidade. Séries e filmes recentes têm explorado disputas de poder, relações entre centro e periferia, memória urbana, transformações sociais e universos culturais específicos, em vez de repetir apenas a fórmula praia, favela e ação.

Esse deslocamento é importante porque muda o estatuto da cidade na tela. O Rio continua belo, reconhecível e altamente filmável, mas passa a ser tratado, em suas melhores produções, como um território denso, e não como imagem pronta.

Locações que já viraram cena de cinema

Se a força do Rio no audiovisual pode ser explicada por dados, logística e diversidade geográfica, ela também se comprova na memória do público. Alguns dos cartões-postais mais conhecidos da cidade já apareceram em produções internacionais de grande alcance e ajudam a mostrar como o espaço urbano carioca funciona, ao mesmo tempo, como cenário reconhecível e elemento narrativo.

Cristo Redentor em Rio e 2012: uma das sete maravilhas do mundo e um dos monumentos mais filmados do planeta, o Cristo aparece em diferentes registros no cinema. Na animação Rio, surge em cenas que celebram Carnaval, música e paisagem, ao lado de lugares como Copacabana, Ipanema, Floresta da Tijuca e Pão de Açúcar. Já em 2012, filme-catástrofe de Roland Emmerich, o monumento aparece em uma sequência de destruição em que se parte e cai do alto do Corcovado em direção à Baía de Guanabara — imagem que chegou a ser usada na divulgação do longa.

Escadaria Selarón em O Incrível Hulk: localizada em Santa Teresa e marcada pelos ladrilhos coloridos, a escadaria aparece no filme de 2008 estrelado por Edward Norton. Na cena, Bruce Banner sobe os degraus a caminho de uma aula de ioga, em uma tentativa de controlar as transformações do Hulk.

Escadaria Selaron, Brazil | MCU Location Scout – MCU: Location Scout
Reprodução MCU: Location Scout

Lapa em Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1: o bairro aparece na chegada de Bella e Edward ao Rio durante a lua de mel do casal. Embora a sequência da viagem se desdobre em outras cidades do estado, como Paraty e Angra dos Reis, a passagem pela Lapa ajuda a fixar a imagem do Rio no imaginário da franquia.

Com cenas gravadas no Brasil, veja fotos do filme 'Amanhecer - Parte 1' -  CARAS Brasil
Divulgação

Pão de Açúcar em 007 Contra o Foguete da Morte: em Moonraker (1979), James Bond protagoniza uma das cenas mais lembradas da série ao lutar no alto do bondinho com vista para a Baía de Guanabara. O enquadramento transforma o Pão de Açúcar em parte central da ação.

James Bond no Brasil: As gravações de um dos piores filmes da série '007',  no Rio | Blog do Acervo - O Globo
James Bond no Brasil: As gravações de um dos piores filmes da série ‘007’, no Rio | Foto Blog do Acervo – O Globo

Praia de Copacabana em Velozes e Furiosos 5: Operação Rio: mesmo com parte das filmagens realizada fora do Brasil, o Rio ocupa posição central na narrativa do longa. A orla de Copacabana, o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar ajudam a compor a ambientação que vende a cidade como sinônimo de velocidade, risco e espetáculo.

Velozes e Furiosos 5: Operação Rio' foi gravado em Porto Rico | Gshow
Reprodução Gshow

Urca em Ainda Estou Aqui: no filme de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, a casa da família Paiva fica na Urca e se tornou ponto de interesse para visitantes. O longa também percorre outros espaços da cidade, como Praia do Leblon, Confeitaria Manon, Túnel Rebouças, Glória, Gamboa, Arpoador, Aeroporto do Galeão e ruas do Jardim Botânico, compondo um retrato urbano que vai além do cartão-postal tradicional.

Casa onde foi gravado 'Ainda Estou Aqui' tem 4 suítes, piscina e até  elevador; g1 visitou | G1
Casa onde foi gravado ‘Ainda Estou Aqui | Reprodução G1

A lista poderia ser ainda maior. O Rio também marca presença em produções brasileiras decisivas, como Tropa de Elite, Vitória e Cidade de Deus, reforçando que sua permanência na tela não depende apenas da fotogenia, mas da capacidade de oferecer contexto, tensão dramática e identidade visual próprias.

O Rio de Janeiro continua sendo protagonista no audiovisual por uma combinação rara de fatores: diversidade geográfica em curtas distâncias, forte identidade visual, infraestrutura institucional de apoio, tradição profissional e demanda internacional crescente. Poucas cidades oferecem, ao mesmo tempo, praia, montanha, floresta, centro histórico, subúrbio e paisagens reconhecíveis mundialmente com tamanha concentração.

O desafio que permanece é outro: transformar essa vantagem competitiva em representação menos estereotipada e mais complexa. Os dados mostram que a cidade segue em alta entre produtores e cineastas. O próximo passo é garantir que o fascínio visual continue acompanhado de narrativas à altura da densidade do próprio Rio.

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