Além da maternidade: Por que personagens maternas mais reais estão conquistando o público?

O mito da “mãe heroína”, impecável e abnegada, está cedendo espaço a figuras complexas, falíveis e profundamente humanas nas telas, nas páginas e nos fones de ouvido. Recentemente, produções como o filme A Filha Perdida, o livro Candura e álbuns confessionais como 30, de Adele, têm liderado conversas sobre a ambivalência materna, revelando que o público busca menos a idealização e mais o espelhamento. Essa mudança no eixo narrativo reflete uma necessidade social de acolher as sombras da maternidade, permitindo que as mulheres existam para além do papel de cuidadoras.

Historicamente, a cultura ocidental confinou a figura materna a dois extremos: a santa ou a vilã (como a clássica Medeia). No entanto, a “pirâmide invertida” do interesse atual mostra que o que mais ressoa hoje é o meio-termo. No cinema contemporâneo, personagens como Marion McPherson (Lady Bird) e Evelyn Wang (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) conquistam a audiência justamente por suas falhas. Elas gritam, erram na dose de crítica e, às vezes, perdem o controle.

O sucesso dessas tramas reside na validação da exaustão. Quando Leda, em A Filha Perdida, admite o alívio de ter abandonado as filhas por um período para se reencontrar, ela quebra o tabu do arrependimento e do sufocamento, algo que, embora silencioso, faz parte da experiência de muitas mulheres reais.

Na literatura, a tendência se repete. Obras como as de Elena Ferrante e a recente estreia de Alice Puterman, com Candura, exploram como traumas, violências e a busca pela sobrevivência moldam o maternar. Aqui, a escrita funciona como um lugar onde a dor pode existir sem julgamentos, expondo que o “instinto materno” não é um interruptor mágico que anula a identidade individual.

Na música, o tom confessional de artistas como Adele e as letras que narram a opressão cotidiana, como em “Maria Moita”, humanizam o ícone. Ao dedicar canções para explicar ao filho o porquê de um divórcio ou de uma busca pela felicidade própria, o entretenimento deixa de ser apenas lazer e passa a ser um manifesto de liberdade.

A ascensão das “mães imperfeitas” no jornalismo cultural e nas artes não é coincidência. Ela acompanha um movimento de conscientização sobre a carga mental e o isolamento social que o ideal da perfeição impõe às mulheres.

Celebrar essas personagens é, acima de tudo, um ato de empatia. Ao ver uma mãe na tela que também quer “simplesmente ir embora” (como o famoso desabafo de Lilly Aldrin em How I Met Your Mother), o público encontra alívio para suas próprias culpas. O interesse crescente por essas histórias mostra que a sociedade está, finalmente, pronta para entender que ser uma mãe real — com todas as suas falhas, silêncios e lutas viscerais — é muito mais potente do que qualquer conto de fadas.

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