“Faraônico”, como diria o incrível Milton Cunha. Essa é a palavra que resume a festa de abertura do Festival de Curitiba 2026 e o show que marcou esse momento. Ao transpor para a Pedreira Paulo Leminski o espetáculo “Samba: As escolas e suas narrativas”, Cunha e Mestre Ciça não entregaram apenas um show; operaram uma intervenção cultural em uma província que, por vezes, padece de uma miopia mercadológica, insistindo em buscar no estrangeiro o que transborda em nossos próprios terreiros.

Reprodução Festival de Curitiba
A montagem é um exercício de descolonização do olhar. Cunha abandona a mediação das telas e propõe o “olho no olho”, desfiando a gramática do Carnaval — do rigor rítmico da bateria ao rodopio transcendental das baianas e passistas — sem pedir licença. Foi uma invasão necessária. Em um solo que frequentemente tenta emular estéticas estrangeiras, o samba impôs sua soberania, lembrando-nos de que a “grama do vizinho”, por mais verde que pareça, carece da vitalidade das nossas raízes.
Assim, quando os elementos sobem ao palco e Cunha narra cada artefato com o seu poder técnico e de brilhantismo, é impossível não se arrepiar com uma versatilidade tão rica de detalhes, história e paixão. O samba aqui não é um produto da “pós-modernidade” ou da “pré-pandemia”; é a voz de um Brasil miscigenado que carrega na pele e no ritmo as cicatrizes indeléveis da escravidão e do machismo. Quando o couro do tambor ressoa e o cavaco chora, a ancestralidade se faz carne. Exu, em sua onipresença espiritual, saúda o agora, reafirmando que a arte negra é uma força irrefreável perante qualquer tentativa de apagamento histórico.

Reprodução Festival de Curitiba
Quando Mestre Ciça conduz sua “transmutação sambista”, a plateia é obrigada a se curvar a um poder artístico de estirpe olímpica. O que se viu na Pedreira foi uma revolução transcendental. As indumentárias com suas histórias únicas e irrefutáveis é um claro sinal de que, nas palavras do passista, “é impossível ficar nos bastidores”. Porque a arte é assim, não cabe em um picadeiro, não cabe em uma avenida, pois não é produzida para caber. Tão pouco lhe resta o backstage.
A arte é de liberdade, do impensável, do irracional, da leveza e do ritual. A arte é do Brasil, porque o Brasil é feito dela.
E nada mais a altura do Festival de Curitiba do que um ritual como este. Um ritual da ancestralidade preta, mas do Brasil também. Mais uma vez, Leandro, Fabíula e o time de curadores – Giovana Soar, Patrick Pessoa e Daniele Sampaio – mergulham nas raízes profundas de um país apagado pela branquitude, de uma nação orgulhosa do equívoco e que, finalmente, tem despertado para olhar os seus e deixar o vizinho com a perdição da própria ignorância. É com trabalhos como esse que o pacto ancestral se solidifica e ganha os holofotes que precisa. Porque no fim das contas, de nada adianta celebrar a arte, se ela não for igualmente ancestral.
A noite de 30 de março consagrou-se como o abre-alas definitivo de uma cultura que se recusa a ser coadjuvante do “sonho americano”. Estamos, afinal, ocupados demais edificando o nosso próprio mito. Se a sociedade cogitou, por um instante, apagar tais memórias em favor de tolices importadas, o Festival de Curitiba respondeu com o som ensurdecedor da nossa própria verdade.
O Brasil, enfim, pode olhar-se no espelho e reconhecer-se majestoso.
