A polêmica das editoras “prestadoras de serviço” e os contratos abusivos no mercado literário

Se você é um usuário do Threads ou do X (antigo Twitter) há uma grande chance de ter se deparado com a polêmica da vez das bookredes que cita a editora Flyve. Tudo começou através de uma autora independente que expôs prints de um email trocado com a editora de uma devolutiva sobre o envio de seu original. No email a editora responde que apesar da obra ter pontos bons, o texto poderia ser melhor trabalhado e oferece a opção de edição e revisão do texto pelo valor de setecentos reais e após esse serviço pronto a editora iria reavaliar a obra para uma possível publicação.

A partir desta publicação se iniciou uma série de reclamações a respeito da editora, dos serviços prestados por eles, de informalidade no tratamento por email com autores da casa e entre outras pautas que não cabem nesta matéria. A grande questão que iremos questionar aqui hoje é a seguinte: os modelos de publicação no Brasil são benéficos para autores independentes, principalmente os autores iniciantes? Para começar essa análise, é preciso apresentar os três principais modelos de publicação mais comuns no Brasil.

O primeiro deles é o tradicional: você envia seu original para a editora, seja diretamente ou por intermédio de um agente literário, eles analisam sua obra e decidem se querem publicar ou não — sendo os custos dessa publicação da editora por completo. Esse modelo requer que o autor não só tenha uma excelente obra escrita, mas que ela seja comercial, encaixe com a linha editorial da casa e que o autor possua uma notoriedade para que já exista um público para quem aquele livro possa ser oferecido e vendido com êxito.

O segundo modelo chamado de vanity press é o completo oposto do tradicional, pois o autor custeia todo o processo editorial. Sem contar que editoras e selos que optam por esse modelo costumam não fazer uma filtragem das obras que vão ser publicadas. Neste modelo, se o autor está disposto a pagar, é publicado. Na grande parte dos casos, não há uma edição do texto, apenas uma revisão ortográfica. Particularmente é o modelo que menos gosto, pois ele ilude o autor a pensar que por estar entrando em editora X de renome, seu livro irá virar best-seller e isso é o maior tiro do pé da carreira de quem escreve, pois nada garante que seu livro vai vender bem a não ser um bom marketing e uma construção de público bem estruturada.

O terceiro modelo é o híbrido, muito comum entre as editoras de pequeno e médio porte no Brasil — e o qual eu trabalho atualmente na minha carreira de autora. Nesse modelo o autor paga pelos serviços editoriais — edição, revisão, diagramação, capa e impressão —, mas tem o apoio da editora para divulgar, distribuir e lançar a obra, além de contratualmente receber uma porcentagem de royalties em cima do valor de capa de cada livro vendido. É claro que existem muitas editoras que se dizem híbridas e na real seguem o modelo anteriormente citado, mas as que são híbridas costumam ser a melhor escolha para autores independentes, iniciantes ou não, que querem ter seu livro físico publicado.

Na minha visão não há um modelo superior, pois não há um único perfil de autor. Existem autores iniciantes que possuem dinheiro para investir em livros físicos e outros que mal têm dinheiro para fazer uma revisão ou capa profissional e autopublicar na Amazon. Acredito que o mais importante é entender sua realidade e também se ter o livro físico faz sentido com o público para o qual você escreve, pois existem diversos gêneros que ter apenas o ebook basta. Se mesmo assim você quiser ter o livro físico por uma vontade pessoal e não profissional, meu conselho é que pesquise várias editoras e reflita qual modelo é viável dentro da sua realidade.

Para quem não escreve livros e nem tem a pretensão de escrever, mas ama ler e saber mais do mercado editorial, eu te convido a refletir comigo sobre essa pauta. Por que será que é tão difícil para as editoras investirem em autores nacionais, mesmo que eles tenham obras muito bem escritas? Por que o autor iniciante precisa não só gastar dinheiro, mas tempo para fazer uma divulgação imensa e conseguir o retorno de todo seu investimento? Por que será que é tão difícil para um autor nacional pensar em vender 100 exemplares numa pré-venda?

A resposta para isso está diretamente ligada a nós leitores, que consumimos livros internacionais sem questionar o preço colocado pelas editoras e torcemos o nariz quando o ebook do autor nacional independente custa cinco reais. Ou quando nós deixamos de comprar um livro físico nacional porque “não sei se é bom”, mas não hesitamos em comprar um autor internacional que começou a ser publicado no Brasil.

Como qualquer outro meio comercial, o mercado editorial se pauta no consumo dos leitores, então se não houver uma demanda maior de leitores que querem comprar livros nacionais, a aceitação de autores nacionais nas editoras vai ser menor também. Portanto, não é apenas uma questão de expor editoras que abusam na precificação dos serviços ou que “brincam” com o sonho de publicação do escritor, mas também um problema que começa na raiz dessa cadeia alimentar que é o consumidor final do livro: o leitor.

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