É curioso pensar que, logo após Guillermo del Toro trazer de volta Frankenstein com um longa excelente, digno de indicação a Melhor Filme, marcado por diversas críticas sociais, meses depois a diretora Maggie Gyllenhaal lança agora A Noiva de Frankenstein, junto com a atriz Jessie Buckley, que também esteve em Hamnet, outro longa indicado a Melhor Filme. Agora, Buckley protagoniza a Noiva, em uma releitura do universo criado por Mary Shelley.
O filme se passa na década de 1930, em Chicago, onde Frankenstein vai até a Dra. Euphronios para pedir uma companheira. Os dois então trazem de volta à vida uma jovem. Marcado por um mundo de violência e obsessão, a Noiva — que recebe o nome de Penélope e Frankenstein têm dificuldade de se encaixar nesse mundo cruel e opressor.
Jessie Buckley se destaca muito em seu papel, conseguindo captar bem a essência de uma personagem multifacetada. É interessante como a atriz, que fez um papel mais dramático e sentimental em Hamnet, consegue aqui alternar para uma personagem intensa e expansiva. Já Christian Bale brilha tanto quanto Buckley em seu papel como o monstro Frankenstein. Ambos têm ótima química. Bale interpreta um monstro mais emocional e carente, que, de certa forma, já aprendeu a viver entre os humanos. Seu jeito carente, sua obsessão por Reed Richards e a forma como tenta entender a Noiva tornam o personagem mais humano e até adorável para o público, sendo um dos maiores acertos do filme.
Entretanto, o filme tenta ser ousado e audacioso demais, trazendo muitas críticas sociais ao mesmo tempo identidade, rebelião, amor, opressão e fantasia clássica o que acaba tornando a narrativa confusa. Além disso, a Noiva acaba ficando repetitiva em alguns momentos, não se tornando tão carismática quanto seu companheiro. Diferentemente do Frankenstein de Guillermo del Toro, onde as críticas sobre o homem e a sociedade são mais pontuais, aqui chega um momento em que não se entende claramente qual é a mensagem central do filme. A obra tenta ser moderna demais e, por se passar na década de 1930, essa atualização temática nem sempre se mostra coerente com o contexto histórico retratado.
O grande problema do filme é o fato de Maggie Gyllenhaal apostar mais naquilo que a Noiva representa, ou no que deseja que ela simbolize, do que na própria construção narrativa. A tentativa de transformá-la em um símbolo de autonomia feminina, dona das próprias ideias e não apenas a esposa do monstro, é conceitualmente interessante. No entanto, ao verbalizar excessivamente suas críticas, o roteiro acaba enfraquecendo a personagem. Em vez de demonstrar sua emancipação por meio de ações e escolhas concretas, o filme prefere optar por discursos e falas que comprometem seu carisma e sua complexidade. O problema da personagem é que ela já nasce com o discurso pronto e não vai vivenciando momentos que moldam a sua forma de ver.
A Noiva recusa o papel para o qual foi criada de ser mera companheira do monstro mas, paradoxalmente, permanece sempre ao lado dele, o que cria uma contradição que o roteiro não desenvolve com a profundidade que deveria.
A cena inicial do jantar resume um dos principais problemas do filme. Ambientada nos anos 1930, a história mostra comportamentos que eram comuns naquela época, mas a reação da Noiva surge com uma consciência muito atual, quase como se estivesse falando a partir do presente. O anacronismo pode ser proposital, mas nem sempre funciona. A Chicago da década de 30 parece servir mais como estética do que como parte real do conflito. O discurso é moderno, mas o mundo ao redor dela não acompanha essa mudança.
A Noiva é um filme ambicioso e visualmente interessante, com duas atuações fortes, mas ao tentar dizer muitas coisas ao mesmo tempo, o filme perde força justamente onde poderia ser mais potente: na relação entre seus protagonistas.
