Hoje, a notícia viaja à velocidade de um clique e o mundo cabe na palma da mão. No entanto, para quem viveu as redações até meados dos anos 90, o jornalismo era uma profissão de resistência física, improviso constante e uma relação quase sagrada com o relógio. Antes do Google e do Wi-Fi, a informação não estava disponível; ela precisava ser “caçada” e transportada fisicamente.
O Arquivo Vivo nas Gavetas de Aço
Sem motores de busca, o braço direito do repórter era o Cedoc (Centro de Documentação). O “Google” da época consistia em salas imensas, repletas de gavetas de aço e pastas suspensas. Para traçar o perfil de uma autoridade, o jornalista mergulhava em recortes de jornais antigos, colados manualmente em folhas de papel.
Nesse cenário, as listas telefônicas e os “caderninhos” de contatos eram os bens mais preciosos de um profissional. Perder a agenda física era o equivalente catastrófico de perder o disco rígido de um computador nos dias atuais.
A Epopeia do Orelhão
A apuração de rua era um exercício de logística. Com celulares sendo raridades extremas, o repórter saía para a cobertura munido de moedas e fichas telefônicas.
“Era preciso mapear os orelhões que funcionavam perto do local do fato”, relembram veteranos.
A comunicação com o editor dependia de filas em telefones públicos ou da gentileza de donos de bares. Um rápido “cheguei, a situação é essa, volto em duas horas” era tudo o que a redação recebia antes do fechamento.
O Ritmo das Máquinas e a Ditadura do Fax
Dentro das redações, o silêncio era inexistente. O som dominante era o das máquinas de escrever Olivetti, um batuque rítmico que não aceitava o comando “delete”. Um erro grave significava arrancar a folha, amassá-la e recomeçar do zero, ou apelar para o corretor líquido.
Para coberturas em outras cidades, o desafio era dobrado. O texto, datilografado ou escrito à mão, precisava ser enviado via fax. Do outro lado, na sede do jornal, um colega recebia as folhas térmicas e precisava redigitar cada palavra no sistema de composição.
A Corrida Contra a Rotativa
O “fechamento” era um evento físico e definitivo. Na fotografia, o suspense imperava: o fotógrafo corria para a redação para revelar o filme na câmara escura. Só então descobria-se se o clique estava em foco ou se a foto principal havia se perdido.
Havia também o Télex, o tataravô do e-mail. Uma máquina pesada que transmitia textos via rede telefônica, utilizada para receber notícias internacionais de agências como a Reuters.
Toda essa engrenagem precisava convergir para o horário da rotativa, geralmente entre 22h e 23h. Se o jornal não fosse impresso a tempo, os caminhões de distribuição não partiam, e a cidade acordava sem notícias. Não existia “atualizar a página”; o erro custava caro e a retificação só chegaria às bancas 24 horas depois.
Era um jornalismo de memória, de confiança olho no olho e de muito suor. Uma era onde a notícia não corria, ela era carregada no braço.
