Lobby, política e surpresa: as derrotas improváveis que viraram lenda no Oscar

Há quem diga que o Oscar premia sempre o melhor, o mais aclamado, àquele que merece todas as honras. Mas nem sempre é assim. A premiação, vez ou outra surpreende a todos (especialistas e fãs) quando aparece um vitorioso que não estava no radar. Quando isso acontece, popularmente chamamos de que “deu zebra”. Uma delas, foi em 1999 quando Shakespeare Apaixonado venceu a categoria de Melhor Filme, desbancando o aclamado O Resgate do Soldado Ryan. A repercussão foi tamanha que muitos especialistas entenderam como uma injustiça.

Dirigido por Steven Spielberg, O Resgate do Soldado Ryan era favorito por uma série de quesitos. Foi uma obra-prima por seu realismo impactante, profundidade emocional e principalmente pela inovação técnica que proporcionou a quem assistisse uma imersão na brutalidade da guerra. Outro destaque para o longa é a abertura que recria o desembarque das tropas no dia D, na batalha da Normandia. Os efeitos da câmera e do som fizeram com que os espectadores sentissem a angústia da guerra.

Entretanto, a qualidade da obra não foi capaz de superar o lobby e a campanha de marketing orquestrada pela Miramax para Shakespeare Apaixonado. Uma das estratégias foi o envio de cópias do filme para os votantes da Academia e a influência da produtora na mídia, algo que persuadiu o resultado do Oscar, apesar da preferência do público e da crítica especializada por O Resgate do Soldado Ryan.

Outra zebra que não passou despercebida foi a vitória de Crash – No Limite, em 2006. Naquele ano, o favorito era O Segredo de Brokeback Mountain. Aqui entramos num aspecto sensível. Ambas produções tinham pontos que mereciam destaque. Enquanto Crash trouxe uma abordagem impactante sobre racismo e tensões sociais, O Segredo de Brokeback rompeu paradigmas ao trazer um romance gay entre cowboys.

Os argumentos a favor de Crash se baseiam na originalidade, na época, em entrelaçar narrativas, imprimir impacto emocional, mesmo num tema que é recorrente em Hollywood, e na desconstrução de estereótipos. Já O Segredo de Brokeback, dirigido pelo renomado Ang Lee, teve atuações memoráveis de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, apresentou uma combinação de qualidade cinematográfica e narrativa emocionante além do simbolismo cultural ao trazer um romance gay, tornando o longa um marco na representação LGBTQIAPN+ no cinema.

Porém, mesmo O Segredo de Brokeback Mountain sendo o favorito e ter conquistado na temporada de premiações o Leão de Ouro, no Festival de Veneza, quatro Globos de Ouro e quatro BAFTAs, ser aclamado pela crítica e pelo público, suspeita-se que o romance gay tenha dividido a Academia na votação. O próprio diretor de Crash, Paul Haggis, havia sugerido na época que O Segredo de Brokeback merecia vencer o Oscar e a roteirista do filme chegou a afirmar que a homofobia na indústria tirou o prêmio do longa, gerando uma percepção de injustiça histórica.

A conclusão que chegamos é que até mesmo a maior premiação de cinema do mundo funciona por meio da política, do lobby, das nuances midiáticas e as questões sociais sempre vão influenciar a escolha dos vencedores de alguma forma. Nos resta sempre torcer para que haja o reconhecimento das boas produções, que a esperança de um bom filme nunca se perca e que sempre haja reflexão, história e transformação de vidas na sétima arte.

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