“Sonhos de Trem”: Belo na forma, vazio na alma

Muito lindo, extremamente naturalista, pseudopoético e um porre de filme. Talvez eu esteja exagerando quando digo isso, mas é sério: dentre todas as obras selecionadas na temporada de premiações, essa é a mais mamão com açúcar que existe. Eu sinceramente não entendi o que o diretor queria com essa história: criticar a Revolução Industrial na América ou o sonho americano? Dar destaque à vida de um trabalhador tão comum que chego a considerar não ser o protagonista da própria vida, de tão escanteado em meio às tragédias, junto à evolução do país ao longo de toda a rodagem da fita.

É a vida desse cara comum que me recuso a saber o nome, indiferente ao que acontece com o país em que vive, indiferente às escolhas de vida e indiferente quanto ao seu futuro. Ele não age e, por acaso, eventos extraordinários acontecem com ele. É assim que resumo “Sonhos de Trem”.

Desde criança, o protagonista é um grande espectador de tragédias: não sabia dizer quem eram seus pais, via mortes, acidentes, assaltos aonde quer que fosse. Além disso, teve contato com o amor por acaso. Uma pessoa levada pelo rumo da natureza — pela correnteza do rio —, não diretamente conectada a ela, mas sempre testemunhando eventos que o fazem lembrar do ciclo da vida — do início ao fim e até das fantasias que percorrem este mundo. Esse aspecto naturalista fica evidente na belíssima fotografia de Adolpho Veloso, que, quando comparada, lembra bastante os filmes de Terrence Malick — cineasta que leva o naturalismo junto aos dogmas católicos em seus filmes e, é claro, a narração que conduz suas obras, semelhante a este que abordo hoje.

Em certos momentos, percebo uma crítica sendo construída de forma tímida, como na questão do trabalho duro, do suor e, literalmente, do sangue derramado para erguer a indústria norte-americana. Também há a resposta da floresta em relação à industrialização, dando recompensas e tirando do protagonista, marcando até um momento bonito na fogueira, quando ele é visitado por um fantasma da vida, dizendo: “Não acha que é sofrimento demais pra mim?”. Porém, esse duelo entre a indústria e a natureza fica tão escanteado, nada aprofundado, assim como todas as pautas atribuídas ao longa.

Se a crítica real era destacar os trabalhadores por trás dos nomes que protagonizam a história dos Estados Unidos — neste caso, a indústria ferroviária de Cornelius Vanderbilt, não citado no longa —, então por que sinto que, no trecho final do filme, existe um saudosismo americano ou um orgulho em meio à indústria consolidada, dado o avanço tecnológico com a corrida espacial e até no transporte da aviação? É irônico, já que as principais tragédias que o personagem sofreu foram causadas por essa indústria, e é a mesma que ele demonstra satisfação e plenitude? Não sei, isso parece errado em todos os sentidos. Pior que isso é esse narrador que acompanha a história como guia ao espectador, dando uma lição de moral no fim, como uma fábula sendo contada.

“Sonhos de Trem” é uma narrativa em que nada perdura, não polemiza, não ofende ninguém, tenta ser poética e sua superficialidade é o que deixa tudo tão mecânico, levando sua moral como uma nota de rodapé, ou melhor, aprofundada igual ao nosso protagonista — quase nada.

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