Apocalipse nos Trópicos: Quando a fé vira projeto de poder

Apocalipse nos Trópicos é um documentário que se debruça sobre uma das forças mais decisivas, e controversas, da política brasileira contemporânea: a fusão entre religião, poder e discurso apocalíptico. Com uma abordagem incisiva, o filme expõe como narrativas religiosas, especialmente de vertente evangélica, vêm moldando projetos políticos, comportamentos sociais e decisões de Estado no Brasil.

O grande mérito do documentário está em revelar que o “apocalipse” do título não se refere apenas a uma ideia teológica do fim dos tempos, mas a um colapso simbólico das fronteiras entre fé e política. Pastores midiáticos, líderes religiosos e figuras do poder institucional aparecem como agentes centrais de um projeto que mobiliza o medo, a moral e a promessa de salvação para conquistar e manter influência. O documentário não demoniza a fé em si, mas questiona seu uso estratégico como ferramenta de controle e legitimação do autoritarismo.

Narrativamente, Apocalipse nos Trópicos constrói um retrato inquietante do Brasil recente, conectando discursos religiosos a pautas conservadoras, ataques a direitos civis e à erosão do Estado laico. A montagem intercala depoimentos, imagens de culto, manifestações políticas e arquivos históricos, criando um clima de alerta constante. Em alguns momentos, a repetição de figuras e discursos pode soar excessiva, mas essa insistência reforça justamente a dimensão onipresente do fenômeno retratado.

Visualmente sóbrio e com trilha discreta, o documentário aposta mais na força do conteúdo do que em recursos estéticos chamativos. Sua potência está no desconforto que provoca: o espectador é levado a refletir sobre até que ponto a religião, quando instrumentalizada, pode se tornar uma ameaça à democracia, especialmente em sociedades marcadas por desigualdade, medo e crises constantes.

No fim, Apocalipse nos Trópicos é menos um diagnóstico fechado e mais um chamado à vigilância. Um filme necessário, urgente e perturbador, que convida o público a questionar não apenas líderes e instituições, mas também a própria passividade diante da mistura explosiva entre fé, poder e política no Brasil contemporâneo.

Assista ao trailer

Foto de capa: Ricardo Stuckert

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