Mulheres no Oscar: presença histórica, mas ainda desigual

O Oscar, maior premiação do cinema mundial, chega em 2026 à sua 98ª edição. Desde sua criação, novas categorias foram incorporadas e, aos poucos, o reconhecimento tornou-se mais diverso. Ainda assim, a presença feminina entre os vencedores permanece limitada, especialmente nas categorias técnicas, historicamente dominadas por homens.

A primeira mulher a conquistar uma estatueta do Oscar foi a atriz Janet Gaynor, em 1929. O prêmio reconheceu seu trabalho em três produções: Sétimo Céu (1927), Aurora (1927) e O Anjo das Ruas (1928). Essa foi a única vez na história da premiação em que uma atriz venceu por múltiplos papéis simultaneamente. Gaynor também se tornou, à época, a vencedora mais jovem da categoria, marca que só seria superada em 1986. Além da vitória em 1929, ela voltou a ser indicada em 1938 por sua atuação em Nasce Uma Estrela.

Nascida em 1906, na Pensilvânia, Laura Augusta Gaynor, conhecida mundialmente como Janet Gaynor, demonstrou interesse pelas artes desde cedo, participando de peças teatrais durante sua vida escolar. Ao longo da carreira, destacou-se em filmes como Nasce Uma Estrela, Jovem no Coração, Sunny Side Up, State Fair e Lucky Star. Em 1924, após realizar um teste para o filme Escola de Sereias, recebeu o convite que marcou sua entrada definitiva em Hollywood.

Nas categorias técnicas, o reconhecimento feminino demorou ainda mais a acontecer. Em 1930, quando a categoria de roteiro ainda se chamava “Melhor Escrita”, a Academia premiou Frances Marion pelo trabalho em O Presídio, tornando-a a primeira mulher vencedora nessa área.

Seis anos após a criação da categoria de Melhor Roteiro Original, as mulheres voltaram a ser reconhecidas. Em 1947, Muriel Box venceu ao lado do marido, Sydney Box, pelo roteiro de O Sétimo Véu.

Na produção, a conquista feminina também foi tardia. Apenas em 1974, no 46º ano do Oscar, um filme produzido por uma mulher venceu a principal categoria da noite. Golpe de Mestre levou o prêmio de Melhor Filme, com produção de Julia Phillips, Tony Bill e Michael Phillips.

A categoria de Melhor Direção continua sendo a mais desigual da história do Oscar. Mulheres representam apenas cerca de 3% dos vencedores ao longo de mais de um século. As barreiras são numerosas. “Desde liderar equipes predominantemente masculinas e em jornadas de trabalho de muitas horas até o desafio de conciliar a carreira com trabalhos não remunerados , como o cuidado com pais e filhos”, afirma Lúcia Monteiro, curadora, crítica de cinema e professora da Universidade Federal Fluminense, em entrevista à Forbes.

Na 98ª edição do Oscar, há a possibilidade de uma mulher conquistar sua segunda estatueta na categoria de Melhor Direção. Chloé Zhao, vencedora em 2021 por Nomadland, concorre novamente em 2026 com Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. A edição marca um avanço simbólico: cerca de 30% dos concorrentes são mulheres, um índice ainda distante da equidade, mas superior à média histórica da premiação.

Mesmo com avanços pontuais, os números gerais seguem baixos. Até hoje, apenas 17,88% das estatuetas foram concedidas a mulheres ou a grupos com ao menos uma mulher entre os vencedores. Os outros 82,12% ficaram exclusivamente com homens, sem considerar as categorias de atuação e Melhor Filme Internacional, cujo prêmio é atribuído ao país. Os dados ajudam a contextualizar a importância dos nomes listados a seguir, que representam conquistas femininas em algumas das principais categorias do Oscar.

Mês da Mulher: Conheça Janet Gaynor 1° mulher a ganhar o Oscar® de Melhor
Janet Gaynor – Primeira mulher a ganhar o Oscar

Confira abaixo algumas categorias vencidas por mulheres

Melhor Direção

  • 2010 – Kathryn Bigelow – Guerra ao Terror
  • 2021 – Chloé Zhao – Nomadland
  • 2022 – Jane Campion – Ataque dos Cães

Melhor Filme (prêmio concedido aos produtores)

  • 1974 – Golpe de Mestre – Tony Bill, Michael Phillips e Julia Phillips
  • 1990 – Conduzindo Miss Daisy – Richard D. Zanuck e Lili Fini Zanuck
  • 1995 – Forrest Gump: O Contador de Histórias — Wendy Finerman, Steve Tisch e Steve Starkey
  • 1999 – Shakespeare Apaixonado – David Parfitt, Donna Gigliotti, Harvey Weinstein, Edward Zwick e Marc Norman
  • 2004 – O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei – Barrie M. Osborne, Peter Jackson e Fran Walsh
  • 2006 – Crash: No Limite – Paul Haggis e Cathy Schulman
  • 2010 – Guerra ao Terror – Kathryn Bigelow, Mark Boal, Nicolas Chartier e Greg Shapiro
  • 2014 – 12 Anos de Escravidão – Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Steve McQueen e Anthony Katagas
  • 2016 – Spotlight: Segredos Revelados – Michael Sugar, Steve Golin, Nicole Rocklin e Blye Pagon Faust
  • 2017 – Moonlight: Sob a Luz do Luar – Adele Romanski, Dede Gardner e Jeremy Kleiner
  • 2020 – Parasita – Kwak Sin-ae e Bong Joon-ho
  • 2021 – Nomadland – Chloé Zhao, Frances McDormand, Mollye Asher e Peter Spears

Melhor Roteiro Original

  • 1947 – Muriel Box e Sydney Box – O Sétimo Véu
  • 1956 – William Ludwig e Sonya Levien – Melodia Interrompida
  • 1979 – Nancy Dowd, Waldo Salt e Robert C. Jones – Amargo Regresso
  • 1986 – William Kelley, Pamela Wallace e Earl W. Wallace – A Testemunha
  • 1992 – Callie Khouri – Thelma & Louise
  • 1994 – Jane Campion – O Piano
  • 2004 – Sofia Coppola – Encontros e Desencontros
  • 2008 – Diablo Cody – Juno
  • 2021 – Emerald Fennell – Bela Vingança
  • 2024 – Justine Triet e Arthur Harari – Anatomia de uma Queda

Melhor Roteiro Adaptado

  • 1930 – Frances Marion – O Presídio
  • 1934 – Victor Heerman e Sarah Y. Mason – As Quatro Irmãs (Little Women)
  • 1943 – Arthur Wimperis, George Froeschel, James Hilton e Claudine West – Rosa de Esperança ( Miniver)
  • 1987 – Ruth Prawer Jhabvala – Uma Janela para o Amor
  • 1993 – Ruth Prawer Jhabvala – Retorno a Howard’s End
  • 1996 – Emma Thompson – Razão e Sensibilidade
  • 2004 – Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson – O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
  • 2006 – Larry McMurtry e Diana Ossana – O Segredo de Brokeback Mountain
  • 2022 – Siân Heder – No Ritmo do Coração

About The Author

Mais do mesmo autor

Oscar: “Uma Batalha Após a Outra” recebe 13 indicações e celebra favoritismo