“O Franco Atirador”: o retrato cru da falência do sonho americano

Por Bryan Lander

Em 1978, Hollywood estava sendo marcada pelo início do fim de seu período revolucionário no audiovisual. Foi um movimento cinematográfico onde a geração de jovens do “sexo, drogas e rock´n´roll” dominou o cinema e de forma rebelde. Influenciados pelos mestres do cinema italiano, os franceses e o pai do cinema independente: John Cassavetes. Eles saíram dos estúdios e contaram história inimagináveis. Como estava dizendo, em 78 estava marcado o início do fim devido o lançamento de “Tubarão” em 75 e “Star Wars” em 77. Esses, foram os filmes que mataram qualquer originalidade e liberdade, uma vez que os estúdios viram que dinheiro podia ser gerado desenfreadamente, consequentemente, os blockbusters nasceram. Por meio desses filmes fantásticos e criativos, “O Franco Atirador” tem sua estreia. Um filme que quebra toda vertente mágica, desafiando os estúdios e até o próprio país ao contar sobre o fracasso dos Estados Unidos na guerra do Vietnã.

Deus abençoe a América? Talvez, não. Na história, conta o relacionamento sobre três amigos – Michael (Robert De Niro), Nick (Christopher Walken) e Steven (John Savage) – que são convocados para a guerra e aproveitam seu último dia na América, antes de embarcar para a aventura que irá impactar cada um deles de maneiras diferentes. Nesse pequeno resumo, podemos concluir que a linha narrativa vai seguir a estrutura dos três atos na forma: despedida/preparação, conflito e consequências. E é exatamente isso que a obra faz, sendo bastante direto e óbvio nas divisões que ocorrem na história.

Começamos com a primeira parte que é a despedida/preparação dos personagens para guerra. Somos apresentados a breve rotina de trabalho desses amigos. E nessa uma hora de introdução, entendemos completamente a dinâmica de cada um ali, podendo até sinalizar quem já tem algum histórico conturbado no passado, piadas internas, desejos reprimidos, etc… Esse início, é muito movido pela inocência embriagada, tanta nas emoções quanto no consumo do álcool que se desenrola para o casamento de Steven. O que se destaca em meio a todos esses personagens é o personagem de De Niro, quieto e por vezes recluso do grupo. Michael esconde seus interesses, almeja Linda (Meryl Streep) companheira de Nick, mas nunca avança. Não por respeito ao amigo e sim, por respeito a sua liberdade/privacidade.

Todos os membros do grupo são homens no sentido mais homem possível – pelo menos, o que se entendia na década de 70. Eles berram, são tarados, agressivos, ativos na caça de animais, abrem cerveja como se fosse manusear genitália – soltando espuma como ejaculação – e sacanas o tempo todo. Tudo isso para esconder uma despedida melodramática e a separação desse grupo, simbolizado pela trilha sonora do compositor Stanley Myers e uso do filtro split diopter – uma lente convexa pela metade que é colocada na frente da lente principal da câmera, permitindo que algo lá no fundo fique em foco junto do que está em foco no primeiro plano.

Sinceramente? É o ponto alto do filme. Diferente de outras obras que abordam a guerra como “Nascido Para Matar” (1987), não existe a cena dos amigos entrando no quartel, passando meses em treinamento, até chegar na guerra. Curiosamente, o filme pula essa parte caindo direto para o confronto. A questão ao meu ver, Michael Cimino – diretor do filme – tem interesse muito mais nas emoções dos personagens e na despedida deles, mostrando esses vários eventos de forma gradual até dar o corte e eles estarem na guerra. É um ritmo perfeito, mas que infelizmente, só se mantém nessa transição do primeiro para o segundo ato.

Estando na guerra, Michael, Nick e Steven passam por várias situações, experiências nada agradáveis, e momentos que se tornaram icônicos na cultura pop como a cena de tortura da roleta russa. Nessa parte, o que eu gosto da direção é como o Vietnã é filmado: a câmera vê a floresta com curiosidade e temor. Diferente do lugar comum onde os personagens vieram – cidade do subúrbio e cercada por montanhas –, apesar do caos na festa despedida dos personagens junto a farra, ali, era tudo muito controlado pelo uso de trilhos, zooms e tripé. Na floresta, tudo é muito desbalanceado. É uma direção que emula o sentimento dos personagens e seus costumes, levado pela coesão da narrativa.

É nesse momento em que existe o teste e como cada um deles vai levar essa experiência para vida. Se antes, Michael personagem de Robert De Niro era quieto, aqui ele se torna de vez um antissocial. Apesar de estar vivo e representar aos seus amigos como um símbolo de vitória, Michael só se enxerga como um sobrevivente, alguém que usa sua farda não por orgulho, mas para se lembrar que diferente de Steven e Nick, ele teve sorte. Dividido entre a aceitação e a tentativa de se realocar em meio a uma sociedade que desconhece o descompromisso do país com os próprios cidadãos.

Já Steven, acabou tendo suas pernas amputadas, sendo cuidado numa clínica quando voltou pros Estados Unidos. Enquanto Nick, interpretado por Walken, tem a oportunidade de recuperar sua sanidade, mas acaba afogado pela sombra do medo e se tornando parte de um experimento eterno em busca da sua humanidade. Quando diz não para ao champanhe – bebida que simbolizou o último dia na América –, na verdade, ele está dizendo não para vida, abraçando assim qualquer oportunidade insana que apareça na sua frente.

“O Franco Atirador” é um testemunho político da derrota dos Estados Unidos na guerra do Vietnã. Apesar de não me agradar em seu meio para o fim, principalmente pelo texto que se torna muito abrupto na mudança de eventos, gosto como ele se tornou em seu tempo, uma obra provocadora. Com certeza, inspirou o pensamento crítico de uma geração que passou a reconhecer a América como um estado colonizador, perdendo o amor de seu próprio povo.

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